Ponte dos Espiões (2015)

Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, EUA, 2015)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Matt Charman, Ethan Coen e Joel Coen

Com: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Austin Stowell, Sebastian Koch, Eve Hewson, Domenick Lombardozzi, Alan Alda, Jesse Plemons, Dakin Matthews, Nadja Bobyleva, Peter McRobbie, Will Rogers, Billy Magnussen.

Se há uma palavra que não pode ser associada com as temáticas da filmografia de Steven Spielberg, esta é “cinismo” – exceção feita apenas ao pessimista (e excepcional) Munique, lançado discretamente há 10 anos. É sempre possível, na obra do veterano cineasta, perceber lados morais claros que tornam a torcida e o apoio do espectador algo quase inevitável. Pode ser chamado de simplismo, mas o fato é que, embora por vezes escorregue num excesso de melodrama, Spielberg sabe filmar esse tipo de obra com uma classe formal inegável. Em Ponte dos Espiões, o diretor segue uma espécie de linha Frank Capra, trazendo um protagonista em oposição a uma estrutura indiferente – adicionando mais um exemplar sólido ao seu invejável currículo.

Inspirado num caso ocorrido durante a Guerra Fria, Ponte dos Espiões acompanha James Donovan (Hanks), advogado de uma seguradora que é convidado pelo governo americano a representar a defesa de Rudolf Abel (Rylance), acusado de ser espião soviético. Mesmo enfrentando uma intensa reprovação pública, Donovan insiste que Abel seja mantido vivo – um apelo que se revela proverbial quando os russos capturam o piloto americano Francis Gary Powers (Stowell), derrubado de um avião de reconhecimento. É então que o advogado recebe a tarefa de negociar uma troca de prisioneiros com a União Soviética, mas a situação se complica quando um estudante americano é preso na Alemanha Oriental e Donovan resolve tentar sua libertação.

Pode parecer uma clássica abordagem “americano salva o dia”, mas ficar nessa análise é algo superficial. Spielberg evita aqui o típico maniqueísmo da Guerra Fria “ianque bom, comuna mau”. Aliás, boa parte da primeira hora de projeção foca-se na paranoia macarthista que assolou os Estados Unidos com força excepcional entre os anos 1950 e início dos 60, na qual a menor suspeita de comunismo era sinônimo de crime patriótico – na prática, forçando um esvaziamento no debate político em função de posições irredutíveis. Inteligente, Donovan percebe que tal oposição é contraproducente, sendo íntegro o bastante ao recusar a sugestão de que a defesa de Abel é uma mera formalidade para suavizar uma condenação sumária, fazendo o possível para garantir ao réu um julgamento de verdade – o que não significa negar a posição de Abel como inimigo, a cuja lealdade Donovan não consegue deixar de admirar. Ao expor sutilmente a hipocrisia que cerca a situação de Abel, Spielberg acaba fazendo não só uma eloquente defesa da isonomia jurídica como também critica a lógica dicotômica que norteou a Guerra Fria.

Boa parte da eficiência dessa dinâmica vem da ótima performance de Mark Rylance, que dá ao estoicismo de Abel um caráter ironicamente divertido : capturado pela nação inimiga, ele demonstra uma inata compreensão do que rege a disputa geopolítica, o que pode custar sua vida mesmo que seja devolvido (“O chefe nem sempre tem razão, mas é sempre o chefe”), mas isso não o impede de se manter firme em sua posição, nem de admirar a persistência de Donovan – uma química em cena que remete um pouco à de Liam Neeson e Ben Kingsley em A Lista de Schindler. Por sua vez, Tom Hanks mostra-se uma escolha natural para James Donovan: tendo construído sua carreira majoritariamente em personagens simpáticos, o ator convence naturalmente da honestidade e bom caráter do advogado – e não é difícil imaginar James Stewart (eternizado como o “homem comum” de Capra) num papel similar em outros tempos.

Com roteiro de Matt Charman e dos irmãos Coen, é evitado, aqui, um problema que prejudicou o bom Lincoln: embora estabeleça Donovan como um típico homem de família, a narrativa a deixa em segundo plano por reconhecer que a prioridade que o define como personagem é sua atuação naquela delicada crise internacional. Assim, ao invés da constante quebra de ritmo vista em seu trabalho anterior (onde boa parte das cenas com Sally Field e Joseph Gordon-Levitt poderia ser descartada sem grande prejuízo), Spielberg conduz a trama com foco e disciplina: desde o início, o clima de desconfiança é estabelecido em uma caminhada de Abel, quando este é seguido por um agente da CIA que, por sua vez, também traz reforços para garantir o cumprimento da tarefa. Além disso, as sequências envolvendo a família do personagem de Hanks servem mais para estabelecer de forma mais direta o clima de paranoia e os riscos aos quais todos são expostos do que para funcionar como motor sentimentalista – uma falha recorrente do diretor que, aqui, se mostra bem mais contida. Da mesma forma, as complicações envolvendo a negociação entre americanos, russos e alemães orientais (e a tensão entre os dois últimos) é exposta de modo a funcionarem de forma clara, mas sem recorrer a estereótipos datados (e a direção de arte merece aplausos em sua reconstituição de Berlim que, anos depois da derrota, ainda trazia uma quantidade considerável de escombros).

Contando com uma belíssima fotografia de Janusz Kaminski (parceiro de Spielberg desde A Lista de Schindler), Ponte dos Espiões é mais um ótimo êxito na carreira de seu diretor. Seu híbrido entre drama jurídico e espionagem sóbria (regado com toques precisos de humor) o traz num momento confortável dentro das características de sua obra, resultando numa das misturas mais orgânicas e bem-acabadas de suas tendências mais sérias e do cinema de entretenimento que o mantém em destaque há tantos anos.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Peter Pan (2015)

Peter Pan (Pan, EUA/Reino Unido/Austrália, 2015)

Direção: Joe Wright

Roteiro: Jason Fuchs, baseado nos personagens de J.M. Barrie.

Com: Levi Miller, Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Adeel Akhtar, Nonzo Anozie, Kathy Burke, Lewis MacDougall, Cara Delevingne, Tae-joo Na, Jack Charles e Amanda Seyfried.

Antes de qualquer coisa, um serviço: apesar de lançado no Brasil como Peter Pan, o novo filme de Joe Wright não é uma adaptação da clássica história do inglês J. M. Barrie, mas uma prequel desta, buscando estabelecer a origem de Pan, Capitão Gancho & cia. Histórias de origem tem uma certa tendência a funcionar mal, e esta não é exceção à regra. Embora tenham seus breves momentos de inspiração, Wright e o roteirista Jason Fuchs (do fraquíssimo A Era do Gelo 4) fazem de Peter Pan uma obra confusa quando à própria natureza, indecisa entre a pura fantasia e a insistência em justificar as relações entre os personagens – o que não é pior do que o franco antagonismo ao espírito da obra de Barrie, o que cimenta de vez seu fracasso.

Iniciando com Peter sendo deixado ainda bebê pela mãe num orfanato, o filme logo salta para os bombardeios alemães a Londres durante a Segunda Guerra Mundial, quando o garoto (Miller) dedica-se a infernizar a vida das rabugentas freiras que coordenam a instituição. É então que Peter é raptado por um navio pirata que o leva para a Terra do Nunca, sendo colocado para trabalhar como escravo pelo terrível Barba Negra (Jackman), obcecado pela mineração do pó das fadas. Acreditando que sua mãe está com os nativos da ilha, que vivem em conflito com Barba Negra, Peter se alia a Gancho (Hedlund) para escapar do vilão, encontrando a Princesa Tigrinha (Mara) durante sua fuga.

Em momento algum do conto original tínhamos qualquer subtrama que visasse oferecer esse pano de fundo “complexo”, como as freiras que vendem os órfãos para os piratas ou uma motivação para os vilões agiram de forma maligna. Aqui, não apenas isso soa completamente descartável como Barba Negra se torna uma espécie de versão masculina das irmãs Sanderson de Abracadabra com sua obsessão pela juventude eterna. Além disso, a performance afetada de Hugh Jackman entra em conflito com a vilania do personagem, o que impede que Barba Negra soe minimamente ameaçador e o deixa parecendo no máximo uma réplica de Jack Sparrow. Por sua vez, Rooney Mara falha em tornar Tigrinha uma personagem mais interessante, por mais que esteja longe de ser uma simples mocinha. Já Garrett Hedlund se sai melhor ao conferir um moderado charme canalha a Gancho (uma decisão curiosa tendo em vista o futuro do sujeito), enquanto Adeel Akhtar, como Smee, surge mais em sintonia com um tom leve e fantasioso. Mas se há algo de realmente bom em Peter Pan, é o próprio: o expressivo Levi Miller é bastante eficiente em evocar não só o carisma, mas o espírito travesso do menino (e se isso é pouco visto ao longo da projeção, a culpa é do roteiro, não do ator).

Além da falta de coesão de um roteiro perdido em sua trôpega abordagem, há outra profunda decepção em Peter Pan: a direção pouco inspirada do talentoso Joe Wright. Não é que sua abordagem e encenação sejam ruins, mas parecem extremamente próximos do lugar-comum do gênero fantasia para um cineasta que manipulou as expectativas narrativas do espectador (em Desejo e Reparação) e levou a teatralidade às últimas consequências (em Anna Karenina). Perdendo de vez a mão do projeto no terço final, quando busca um tom épico que o filme definitivamente não precisava, Wright alcança um tom muito melhor nos minutos iniciais que, divertidos e descompromissados, retratam a vida de Peter no orfanato – os únicos que o trazem como o “moleque” descrito por Barrie. Além disso, sua tentativa de criar identidade própria soa mais como uma estranha e deslocada tentativa de brincar de Baz Luhrmann, em dois momentos nos quais Barba Negra lidera um coro trovejante de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana e “Blitzkrieg Bop” do Ramones (sim, Barba Negra explica que seus escravos são “homens de todas as épocas” – o que inclusive justifica o design de produção que congrega traços de vários períodos – mas jamais soa natural ou justificado).

Porém, nenhum desses problemas é tão triste quanto o tom “moderno” dado a Pan. No texto de Barrie e na boa cinebiografia Em Busca da Terra do Nunca, de 2004 (também, em parte, na adaptação da Disney, lançada em 1953) , fica claro que a ilha fantástica é um cenário praticamente idílico, no qual Peter Pan é um símbolo (ou o próprio espírito) da espontaneidade, irresponsabilidade e fantasia que só podem existir na infância – características estas que estão inexoravelmente destinadas a perecer com a idade adulta (daí a bela metáfora do crocodilo com um relógio em sua barriga) e que davam um efeito tão catártico em suas apresentações no teatro, quando o público era convidado a bater palmas para salvar Sininho. Aqui, Peter perde todas esses traços (presentes apenas antes de sua ida à Terra do Nunca) para se tornar um típico protagonista do gênero fantasia contemporâneo: um herói abnegado que, tratado pelo vilão e pelos nativos como “o escolhido” de uma profecia (um recurso que Harry Potter deveria ter aposentado por uns 20 anos, no mínimo), deve assumir a obrigação de salvar seus protegidos enquanto busca sua família – a antítese, portanto, do menino que não queria crescer e que enfrentava os piratas apenas por gosto.

Não cumprindo sequer sua proposta de explicar como Gancho e Peter se tornaram inimigos (expectativa dada pela narração de abertura), essa prequel, no fim das contas, comete o mesmíssimo erro do Alice no País das Maravilhas de Tim Burton: ao transformar o mundo fantástico em “realidade”, retira boa parte de seu apelo imaginário – e acaba por fazer desta apenas mais uma aventura genérica que, com arquétipos clássicos, já foi melhor contada em vários outros filmes.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

 

Missão: Impossível – Nação Secreta (2015)

Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, EUA, 2015)

Direção e roteiro: Christopher McQuarrie

Com: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Jeremy Renner, Ving Rhames, Alec Baldwin, Simon McBurney, Sean Harris, Jens Hultén, Jingchu Zhang, Hermione Corfield e Tom Hollander.

Iniciada há quase 20 anos, a franquia Missão: Impossível continua a se mostrar confortável num subgênero que hoje ocupa praticamente sozinha: o longa de espionagem que, embora não tenha pretensões humorísticas, preocupa-se mais com a ação do que com um tom excessivamente sombrio ou realista. Afinal, qualquer pretensão a uma seriedade nolanesca seria sabotada pelos gadgets absurdos e pelas máscaras que caberiam perfeitamente num episódio de Scooby-Doo – um tom que lembra, em parte, o dos primeiros longas estrelados por Sean Connery como 007. O que, somado às sequências de ação inventivas e à dinâmica de equipe (que começou a funcionar bem melhor no filme anterior), garantem à série uma fórmula de sucesso que, se depender de Tom Cruise, ainda pode se segurar por bons anos.

Escrito pelo diretor Christopher McQuarrie (Oscar por Os Suspeitos de Bryan Singer), M:I 5 mantém o padrão da franquia ao se mostrar consciente de que as tramas não são seu atributo mais importante, mas sim o nível dos desafios apresentados aos heróis. Desta vez, a IMF é desmantelada pelo governo americano, integrando seus agentes à CIA e colocando Ethan Hunt (Cruise) na mira da agência para responder pelos desastres que provocou anteriormente. Absurdo? Sim, mas isso logo coloca a trama em movimento, obrigando Ethan a procurar sozinho por pistas envolvendo uma organização terrorista hipersecreta conhecida como “o Sindicato” ao mesmo tempo em que precisa escapar da CIA. Ao se aproximar de seu principal alvo, o britânico Solomon Lane (Harris), o veterano agente convoca a ajuda de aliados do passado, ao mesmo tempo em que cruza o caminho da enigmática Ilsa Faust (Ferguson).

Tendo seu ponto alto no desenvolvimento das sequências de ação, o novo filme mostra um trabalho competente de McQuarrie nesse sentido, que imprime uma energia especial às sequências de perseguição no Marrocos – além, claro de conferir à vários momentos um caráter semi-cartunesco, algo que sempre fez parte da série, mas que se tornou mais claro depois do quarto filme, comandado por um cineasta oriundo da animação (Brad Bird). Faz parte da fórmula, por exemplo, que uma luta sobre os holofotes de um teatro seja atrapalhada pela mudança da altura da luz, que uma arma seja disfarçada como um clarinete ou que a caixa contendo um bandido seja empurrada direto para um camburão. Além disso, McQuarrie claramente fez o dever de casa ao incluir várias marcas registradas da série: o método curioso com que Ethan é informado de sua missão, ações sob disfarce num evento elegante, locações espalhadas pelo globo, pessoas se passando por outras, Tom Cruise correndo (como se sua vida dependesse disso) e, é claro, a elaborada invasão de um local absurdamente seguro (a única que ficou de fora é a operação realizada com cabos).

Mesmo que tenha pouco material para definir Ethan Hunt como uma figura mais dimensional (algo que nunca foi central para a série), Tom Cruise continua a emprestar ao agente uma intensidade que não esmoreceu nem um pouco em 19 anos com o personagem. Determinado a sempre cumprir suas missões sem se importar com os obstáculos que insistem em surgir em seu caminho, Hunt pode até soar indestrutível, mas a obstinação de Cruise ao encará-las exige que o espectador leve aquilo a sério (e é bacana como Cruise também se preocupa em trazer alguma leveza a Hunt, como ao menear a cabeça em resignação ao ser ameaçado por um capanga). Por sua vez, Simon Pegg aproveita bem o maior tempo de tela, conferindo a Benji seu carisma habitual e uma lealdade a Ethan inquestionável, ao passo que a sueca Rebecca Ferguson, convincente como agente de campo, investe numa determinação similar à de Cruise (ao passo que recursos como o vestido de femme fatale e a montagem ajudam a criar o ar dúbio que cerca a personagem). Já Jeremy Renner e Ving Rhames ficam em segundo plano, mas executam bem suas funções e divertem com o senso de humor característico de cada um. Finalmente, Sean Harris, embora não chegue ao patamar estabelecido pelo saudoso Philip Seymour Hoffman no terceiro filme (ainda o melhor vilão da franquia), confere a Solomon Lane uma frieza mais corporativa, também sendo eficaz em estabelecer o Sindicato como uma clássica organização maléfica, aproximando ainda mais a série da franquia 007 e sua S.P.E.C.T.R.E.

Mostrando confiança em seu material ao já iniciar com uma sequência excelente em que Hunt tenta invadir um avião (em mais uma maluquice realizada por Cruise sem o auxílio de dublês), Nação Secreta se sai especialmente bem durante a sequência de assinatura da série: a invasão – desta vez, a uma usina. Rivalizando com a fantástica sequência no Burj Khalifa do quarto filme e com a icônica cena em que Cruise realizava uma operação suspenso no original, aqui temos mais uma vez ações paralelas tensas seguidas por uma perseguição de carro e moto que, embora prejudicada por alguns fracos efeitos visuais, convence graças ao tom ensandecido com que Cruise interpreta essas sequências. Finalmente, a trama pode até parecer excessivamente confusa no início, mas logo acaba se encaixando e dando lugar a um tom conspiratório que realmente traz riscos à vida dos heróis.

Incluindo algumas referências visuais aos episódios anteriores (como o chaveiro segurado por Ilsa), Nação Secreta é mais um sólido exemplar desta franquia que, em quase duas décadas de existência, não foi um desastre nem em seu pior momento (o segundo filme). E com esse notável balanço entre longevidade e consistência, a perspectiva de novas missões de Ethan Hunt e sua equipe é bastante animadora.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Quarteto Fantástico (2015)

Quarteto Fantástico (Fantastic Four, EUA, 2015)

Direção: Josh Trank

Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank, baseado nos personagens de Stan Lee e Jack Kirby.

Com: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Dan Castellanetta, Owen Judge, Evan Hannemann.

Deve haver alguma maldição sobre o Quarteto Fantástico no Cinema. Enquanto figuras improváveis como Homem de Ferro, Homem-Formiga e os Guardiões da Galáxia ganharam versões bem-sucedidas nas telonas (e aventuras com os ainda mais obscuros Doutor Estranho, Capitã Marvel e os Inumanos estão a caminho), a família superpoderosa que é um dos marcos iniciais do Universo Marvel nos quadrinhos ainda não conseguiu ganhar um longa decente – e não é por falta de tentativas. Ficar apenas levemente acima da tosqueira trash (nunca lançada oficialmente) produzida por Roger Corman em 1994 e dos dois terríveis longas dirigidos por Tim Story (quem?) em 2005 e 2007 não é algo para se orgulhar.

E é uma pena, porque, mesmo tendo sua cota de problemas, a primeira metade dessa versão é até moderadamente promissora. Apresentando-nos a um Reed Richards (Teller) ainda menino, sua genialidade logo é estabelecida ao construir uma máquina de teletransporte na garagem. Encarado com escárnio por seu professor de ciências (o pior da história da Humanidade), o experimento de Reed chama a atenção do cientista Franklin Storm (Cathey), que o recruta para desenvolver um projeto similar iniciado pelo brilhante, mas arrogante, Victor von Doom (Kebbell). Contando com a ajuda dos filhos de Storm, Sue (Mara) e Johnny (Jordan), Reed finaliza o projeto e convoca seu melhor amigo Ben Grimm (Bell) para os testes. Transportados para uma dimensão paralela à Terra, o grupo sofre modificações genéticas e Victor acaba ficando para trás, levando Reed a um esforço desesperado para reverter os efeitos da viagem.

Gastando um tempo enorme para concluir o projeto na Fundação Baxter, ainda assim a primeira metade é razoavelmente eficaz em despertar interesse pela premissa levantada, estabelecendo o progresso de Reed e Victor de maneira convincente (e que dá uma justificativa bem menos datada para o incidente do que a vista em 2005). Além disso, a sequência que se passa na dimensão paralela é conduzida com uma correta urgência, embora o desfecho provoque um estranhamento inevitável quanto aos efeitos experimentados por Sue. Fica claro que a abordagem buscada por Josh Trank (Poder Sem Limites) segue mais para a linha da fantasia de ficção científica ao invés de uma aventura tradicional de super-herói, algo que pode ser notado pela paleta de cores que tende ao cinza, diametralmente oposta ao que vem sido feito pela Marvel Studios (mas não chega ao tom solene empregado pela DC). Porém, isso impõe um certo tédio visual ao filme, mesmo que haja alguns acertos do design de produção (como ao trazer a máquina no edifício Baxter como uma versão 200.0 da criada por Reed com sucata).

No entanto, nada redime o filme de sua principal falha: se o Quarteto se destacou nos quadrinhos por ser não apenas uma equipe, mas uma família de heróis, tal dinâmica é quase inexistente neste filme. Beira o oposto, na verdade: Sue e Johnny se tratam sempre de forma fria e distante, a aproximação romântica entre Sue e Reed mal é sugerida, e as trocas de farpas entre Johnny e Ben só surgem na cena final. Não há qualquer alma na relação dos personagens, que sequer parecem gostar uns dos outros, tornando sua união final uma mera conveniência e comprometendo irremediavelmente seu elo com o lado de cá da tela, por mais que os atores se esforcem – e Miles Teller, em particular, faz o possível para ilustrar a pouca sociabilidade de Reed sem transformá-lo numa caricatura, sendo bem-sucedido. Por sua vez, Michael B. Jordan transforma seu Johnny Storm num contraponto ao (péssimo) de Chris Evans, mas apenas o mantém como uma figura aborrecida e mal-humorada, enquanto Kate Mara e Jamie Bell mal tem tempo de explorar qualquer nuance de Sue e Ben. E se Toby Kebbell também é sabotado pelo roteiro, que logo transforma o Doutor Destino num genérico aspirante a Ultron, Reg E. Cathey acaba se destacando como o “mentor” Franklin Storm, mesmo com sua dinâmica com os filhos sendo (como todo o resto) pobremente desenvolvida.

Também prejudicado pelos intérpretes absolutamente inexpressivos dos jovens Reed e Ben, Quarteto Fantástico desmorona de vez em sua segunda metade: esquecendo-se que o período de “adaptação” costuma ser o ponto alto em obras do gênero, o roteiro o exclui completamente ao incluir uma elipse de um ano, após a qual todos já surgem em pleno domínio de suas habilidades. Embora inclua subtramas como a fuga de Reed, a raiva de Ben pelo amigo e o uso de Ben e Johnny pelos militares, a falta de estrutura entre estas as fazem parecer meras desculpas para atrasar o terceiro ato, já que várias são abandonadas sem cerimônia com o retorno de Victor. Falando nele, a ameaça representada pelo vilão é resolvida com uma facilidade decepcionante, algo que só é piorado pela condução absurdamente preguiçosa de Trank, que não parece ter qualquer ideia de como combinar os poderes do grupo. Não bastasse a brevidade da sequência, também irrita a insistência de Reed de explicar tudo o que Victor está fazendo.

Burocrática em seu desenvolvimento, gastando tempo demais com coisas triviais e descartando qualquer traço do humor e calor humano que garantiu longevidade ao seu material de origem, esta nova versão da Primeira Família da Marvel não chega a irritar como aqueles filmes da década passada, mas é fraca demais para despertar qualquer entusiasmo por novas aventuras do grupo. Não surpreende que a própria Fox estivesse tão insegura quanto ao material que entregou. Confirmando o conhecido dito, o melhor filme do Quarteto Fantástico continua a ser o sensacional Os Incríveis. E pelo visto, isso deve ser manter por um bom tempo…

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Homem-Formiga (2015)

Homem-Formiga (Ant-Man, EUA, 2015)

Direção: Peyton Reed

Roteiro: Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd, baseado nos personagens de Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby.

Com: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer, Abby Ryder Fortson, David Datsmachian, T.I., Anthony Mackie, Martin Donovan, John Slattery e Hayley Atwell.

Muita gente ficou inclinada a detestar Homem-Formiga quando Edgar Wright saiu abruptamente do projeto às vésperas do início das filmagens, alegando “diferenças criativas” com a Marvel. Essa inclinação virou certeza quando o estúdio escalou Peyton Reed (Sim, Senhor, Separados pelo Casamento) para substitui-lo. Se o filme teria sido melhor com Wright no comando, jamais saberemos (muito provavelmente sim) – mas sua ausência significa um desastre? Felizmente, a resposta é um sonoro “não”, pelo contrário. Reed conduz Homem-Formiga com uma escala bem menor que Era de Ultron, o que não é de maneira alguma um demérito, já que o filme funciona muito bem por sua agilidade, leveza e, principalmente, por não hesitar em fazer graça com a própria premissa.

Escrito por Wright e seu pupilo Joe Cornish (do ótimo Ataque ao Prédio) e posteriormente adaptado por Adam McKay (O Âncora) e Paul Rudd, o roteiro quebra qualquer perspectiva de se levar muito a sério desde o início, quando vemos o ladrão Scott Lang (Rudd) prestes a deixar a prisão. Incapaz de conseguir um emprego estável que lhe permita se aproximar da filha pequena, Scott é atraído por um golpe aparentemente lucrativo, mas só o que consegue roubar é um estranho uniforme que o encolhe a um tamanho minúsculo. Em troca de ajuda, o criador do uniforme Hank Pym (Douglas) lhe pede um trabalho arriscado: roubar uma versão militarizada do traje que está sendo desenvolvida por Darren Cross (Stoll), antigo protegido de Pym – um plano que tem a resistência de Hope van Dyne (Lilly), filha do veterano cientista.

Jamais perdendo de vista que o conceito de um herói cujas habilidades são encolher e controlar formigas é um tanto… patético, a nova produção da Marvel sequer tenta passar perto do tom mais sombrio empregado por Joss Whedon em Era de Ultron, aplicando fartas doses de comédia que fazem com que o filme se torne quase tão fluido quanto Guardiões da Galáxia. Colocando-se de forma levemente afastada do núcleo conhecido até aqui (com exceção apenas da cena inicial, com Pym, Peggy Carter e Howard Stark na S.H.I.E.L.D.; e do divertido encontro de Scott com um Vingador), Homem-Formiga concentra-se mais na própria narrativa, funcionando como uma eficiente mistura do subgênero heist movie (filmes que envolvem roubos elaborados) com o universo dos super-heróis. Assim, seus pontos altos são o treinamento de Scott no uso do tamanho minúsculo e no controle dos insetos e, claro, a invasão ao prédio da Pym Tech, na qual o uso das formigas é crucial – e o simples fato de comprarmos essa ideia como plausível dentro das regras estabelecidas já dá uma dimensão do sucesso alcançado.

Com uma tendência irresistível para o sarcasmo, Scott Lang parece um papel feito sob medida para Paul Rudd, que, sempre carismático, abraça o tom leve da narrativa, mas nunca permite que as piadas envolvendo o conceito do Homem-Formiga tornem tudo ridículo. Além disso, Rudd exibe uma segurança durante os roubos e invasões que torna compreensível a decisão de Pym de empregá-lo em seu golpe. Por sua vez, Michael Douglas parece estar se divertindo a valer como Hank Pym, entregando com gosto os diálogos espirituosos do cientista ao mesmo tempo em que exibe autoridade e peso dramático suficientes para que nos importemos com o destino do personagem e seu relacionamento conturbado com a filha (além de conduzir um tocante flashback que também honra as origens do personagem como o Homem-Formiga original e sua parceria com a Vespa). Já Evangeline Lilly, embora mostre uma persona durona e cativante, fica por enquanto apenas na promessa de uma heroína (o que não deve demorar a se concretizar), ao passo que Corey Stoll, como o vilão Darren Cross, pouco pode fazer além do tipo executivo frio e inescrupuloso; e Judy Greer é desperdiçada em um papel secundário ingrato.

Exagerando um pouco na quantidade de diálogos expositivos (embora alguns acabem se justificando pelo uniforme cobrir o rosto de Rudd – particularmente num momento-chave do filme), Peyton Reed por vezes exibe ideias divertidas para disfarçar o fato, como ao mesclar duas sequências em flashback com a rápida narração de Michael Peña (e que lembra alguns maneirismos típicos de Edgar Wright, como os planos de ação de Shaun e Ed em Todo Mundo Quase Morto) – além de exibir um bizarro humor negro ao trazer inocentes ovelhinhas como cobaias dos experimentos de Cross. E se os efeitos visuais que retratam a perspectiva “micro” de Scott não são excepcionais, são eficientes o bastante para que o espectador não estranhe o que está na tela. Já como diretor de ação, Reed certamente mostra-se limitado – e é uma pena que, por exemplo, ele falhe em estabelecer melhor a geografia dos ambientes percorridos pelo “mini-Scott”, especialmente durante a invasão da Pym Tech. Sim, faz sentido que as imagens sejam mais confusas enquanto Scott está aprendendo a usar o traje, mas elas não se tornam muito mais estáveis mesmo depois que ele já domina o truque. Em contrapartida, o diretor se sai melhor em aproveitar as demais possibilidades do uniforme e das invenções de Pym, conseguindo inserir um humor eficaz mesmo em sequências mais sérias (notadamente, o confronto final entre Scott e Darren Cross).

Ficando atrás apenas de Capitão América 2 e Guardiões da Galáxia entre os títulos da Fase 2, Homem-Formiga pode ter seus problemas, mas é um dos exemplares mais divertidos do Universo Marvel Cinematográfico até aqui. Entrega-se sem pudor à comédia, mas jamais deixa de prestar respeito ao seu material de origem. E a julgar pela leveza bem-sucedida vista aqui e em Guardiões, é de se esperar que a Marvel não resolva e investir em tratamentos excessivamente solenes para sua galeria de heróis. Embora não tenha gerado nenhuma obra-prima, a iniciativa do estúdio tem se mostrado uma fonte quase sempre segura de bom entretenimento.

OBS: como de costume, há cenas extras – uma durante os créditos e outra no final. Desta vez, ambas são importantes.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

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