Lincoln (2012)

Há dois filmes disputando espaço em Lincoln: o primeiro é a dramatização de um processo mais política e moralmente complexo do que parece à primeira vista. O segundo é a tentativa de retratar o principal personagem deste processo no âmbito pessoal de forma a humanizá-lo – algo dificultado pela maneira quase beatífica com que o 16º presidente dos Estados Unidos é visto por seus conterrâneos, e que certamente teve forte papel nas incríveis 12 indicações ao Oscar desta cinebiografia. E se o primeiro aspecto citado é sem dúvida interessante, o segundo poderia ser quase totalmente descartado.

Roteirizado pelo dramaturgo Tony Kushner (Munique), Lincoln abre mão da ideia original de Spielberg de realizar uma cinebiografia tradicional, optando por focar-se apenas nos últimos meses de vida do presidente (Day-Lewis) e em seu esforço para aprovar a 13ª Emenda que aboliria definitivamente a escravidão. Assim, Lincoln e seu secretário de Estado William Seward (Strathairn) contratam um grupo de negociadores que deverão conseguir mais votos de relutantes congressistas democratas enquanto lidam com as diversas alas do próprio Partido Republicano – desde os conservadores influenciados por Preston Blair (Holbrook) até os radicais abolicionistas cuja figura mais proeminente é Thaddeus Stevens (Jones).

Se há algo que Lincoln evidencia (e o parágrafo anterior descreve) é a assustadora decadência moral do Partido Republicano: hoje representado por ultraconservadores e fundamentalistas, aqui os republicanos (mesmo os menos afeitos a mudanças) surgem como políticos consideravelmente mais progressistas, enquanto o conservadorismo marca o Partido Democrata, majoritariamente antiabolicionista. Para o crédito do filme, isso não surge num maniqueísmo fácil de oposições absolutas, já que quase todos ali mudarão de lado caso percebam que isso pode lhes trazer benefícios. Da mesma forma, o roteiro também acerta ao trazer os congressistas tratando da Emenda menos como um ato humanitário do que como uma necessidade militar – e mesmo o anti-escravagista Lincoln jamais perde de vista o papel político da lei para encerrar a Guerra da Secessão.

Preso a um roteiro focado quase exclusivamente em diálogos, Spielberg faz um trabalho competente ao retratar os bastidores do poder, enfatizando que a 13ª Emenda foi aprovada mediante subornos e promessas de cargos que fariam a revista Veja se roer de excitação face à possibilidade de anos de pautas e colunas moralistas. Acertando em capturar o espírito da época, o diretor deixa claro que, para boa parte dos congressistas (e mesmo de figuras do povo), a escravidão não é uma questão moral, mas política; é pouco mais que um incômodo – tanto que muitos temem que a libertação dos negros conduzirá a uma escalada em seus direitos civis. Assim, são poucos os que defendem a extensão de tais direitos à população negra – e isso beneficia o filme, pois o contrário não seria crível. Em contrapartida, Lincoln parece acreditar que o espectador já conhece a história que está narrando, e o grande número de personagens ajuda a tornar esse quadro ainda mais confuso, já que vários não são apropriadamente apresentados.

Evitando divinizações, Daniel Day-Lewis transforma Abraham Lincoln numa figura de grande carisma e temperamento sereno que mal disfarça seu permanente cansaço. Sujeito de alma simples (alguns de seus “causos” são engraçadíssimos), o presidente demonstra um enorme tato ao lidar com seus subordinados (embora assuma uma postura mais firme e autoritária quando julga necessário) ao mesmo tempo em que se mostra um astuto estrategista, estabelecendo-se menos como mito do que como o gênio político que provavelmente era. Enquanto isso, Tommy Lee Jones encarna Thaddeus Stevens como um homem impulsivo, mas inteligente o bastante para perceber que sua visão de mundo extremamente à frente de seu tempo poderia mais atrapalhar do que ajudar a causa abolicionista – e o ator convence de tal forma a integridade de Stevens que é tocante testemunhar seu autodesprezo ao ceder parte de seus ideais a fim de não perder apoio para a Emenda. Ao mesmo tempo, Stevens se beneficia da característica persona mal-humorada de Jones, protagonizando cenas hilárias – e o único momento em que Lincoln e Stevens se encontram de fato representa, sem dúvida, o ponto alto da produção.

Apesar das qualidades de sua trama política, Lincoln se fragiliza enormemente ao tentar equilibrar essas sequências com a vida privada do presidente. Não que esse fragmento seja péssimo, pois não é, mas pouco contribui para tornar Lincoln uma figura mais complexa – e assim, Sally Field e Joseph Gordon-Levitt ganham a tarefa ingrata de servir como escada para criar conflitos familiares que têm como único propósito incluir o tema presente em quase todos os filmes de Spielberg: a ausência paterna. De fato, a única cena de Lincoln que sai da apatia emocional sequer envolve o personagem-título: a breve conversa que Thaddeus Stevens mantém com a companheira com quem é impedido de se casar pela diferença racial.

Com uma recriação de época altamente elogiável, Lincoln acertadamente economiza nos planos em contraluz que visam mitificar seu protagonista. Aliás, a fotografia de Janusz Kaminski se mostra contida em função da constante ambientação em interiores (sempre tomados de fumaça de cachimbo ou cigarro), aproveitando bem as cenas em externas, como a batalha que abre o filme e o quadro que traz Robert Lincoln (Gordon-Levitt) parecendo pequeno depois de testemunhar uma cena pavorosamente gráfica. Por outro lado, a montagem de Michael Kahn é vencida pela longa duração do projeto, apesar do uso de ocasionais flashforwards no esforço de tornar a narrativa mais dinâmica – e a tentativa de criar tensão na sequência em que o Congresso põe a Emenda em votação é fadada ao fracasso, já que sabemos que ela será aprovada. Finalmente, a sequência de batalha na abertura é impactante e violenta, diferindo de cenas similares em O Resgate do Soldado Ryan e Cavalo de Guerra por retratar um combate essencialmente físico – algo ressaltado pela câmera, que se mantém desconfortavelmente próxima dos soldados.

Falhando em despertar as lágrimas que sem dúvida seu diretor desejava, Lincoln acaba parecendo mais frágil do que realmente é em função do ritmo irregular e das várias sequências dispensáveis. Infelizmente, Spielberg não conseguiu, desta vez, controlar seus ímpetos sentimentalistas, pois poderia ter gerado uma obra à altura de Munique. Mas, em seus melhores momentos, consegue tratar o tema com a seriedade merecida.

(Originalmente escrito para o site nonada.com.br)

______________________________________________________________________________________
Lincoln (Idem, EUA, 2012)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Tony Kushner, parcialmente baseado em livro de Doris Kearns Goodwin.

Com: Daniel Day-Lewis, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Sally Field, James Spader, John Hawkes, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, David Costabile, Bruce McGill, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Joseph Cross, Jared Harris, Lee Pace, Michael Stuhlbarg, Jeremy Strong, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, Boris McGiver, David Oyelowo, Elizabeth Marvel, Bill Camp, Lukas Haas, Dane DeHaan, Colman Domingo, Adam Driver e Christopher Boyer.

Anúncios

Publicado em 20/02/2013, em Críticas e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: