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Fantaspoa 2015

fantaspoa 2015Links para os textos mais curtos que escrevi sobre filmes exibidos no Fantaspoa (Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre) em 2015:

Deserto Azul (Brasil/Chile, 2015) – 1/5

New Kids Turbo (Holanda, 2010) – 4/5

New Kids Nitro (Holanda, 2011) – 3/5

Os Últimos Sobreviventes (EUA, 2014) – 3/5

The Dead Lands (Nova Zelândia, 2014) – 3/5

Outros filmes assistidos do festival:

Bros Before Hos (Holanda, 2013) – Assim como nos dois New Kids, a dupla Haars-van der Kuil não se acanha no humor politicamente incorreto, mas desta vez seguindo uma abordagem mais convencional. O resultado é uma comédia romântica grosseira mas cativante, que reconhece as falhas de seus protagonistas. 4/5

Depois da Vida (Hungria, 2014) – Segue um tom agradavelmente melancólico e a subtrama sobrenatural caminha num tom doce e divertido. Pena que o filme não saiba muito bem para onde conduzi-la. 3/5

Kanyamakan (Marrocos, 2014) – Seu tom de aventura é bastante eficaz, mas poderia estar a serviço de um filme bem melhor. Ao menos um que não incluísse efeitos videoclipeiros, efeitos sonoros “cômicos” e atuações canastronas. 3/5

Liza, a Fada-Raposa (Hungria, 2015) – Busca um tom nonsense para o drama vivido pela protagonista (um grande desempenho de Mónika Balsai) – e embora por vezes extrapole nos absurdos, certamente é eficaz. 3/5

Lobocop (Canadá, 2014) – Começa divertido, embora perca fôlego no terço final mesmo com sua curta duração. Ainda assim, conta com gore, efeitos práticos e bizarrices suficientes para agradar os fãs de lobisomens. 3/5

Nascido para Morrer (Argentina, 2014) – Parece esquecer que, numa comédia, quem deve achar as coisas engraçadas é o público, não os personagens. Somando isso a uma paródia sem graça dos filmes de espionagem, a receita do desastre é completa. 1/5

Night of the Living Deb (EUA, 2015) – Uma comédia romântica encontra George A. Romero. Nem perto de ter a classe de Todo Mundo Quase Morto, mas relativamente bem-sucedido no que se propõe. 3/5

Ninja Torakage (Japão, 2014) – Tenta ser ao mesmo tempo um épico conto do Japão medieval e uma comédia que flerta com o pastelão. Uma mistura indigesta que desaponta ainda mais pelos momentos em que revela um potencial desperdiçado. 2/5

O Que Fazemos nas Sombras (Nova Zelândia/EUA, 2014) – O formato mockumentary empregado para uma narrativa ao estilo Keeping Up with the Kardashians, trocando socialites por vampiros (bem que isso poderia substituir o programa original…). Ótimos diálogos e composições inspiradas complementam as ótimas sacadas da direção. 4/5

Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (EUA, 1984) – O clássico de Stuart Gordon continua brilhante ao conseguir equilibrar o riso e o arrepio neste derivativo oitentista de Frankenstein, que também oferece um prato cheio em gore e efeitos práticos. 5/5

Santiago Violenta (Chile, 2014) – Acertando em doses de uma orgânica metalinguagem, diverte com sua homenagem aos policiais dos anos 70 ao mesmo tempo em que cria suas próprias sequências memoráveis, funcionando muito bem mesmo com o estranho desfecho. 4/5

Stung (EUA/Alemanha, 2015) – Não apenas um filme que é bem-sucedido em usar abelhas gigantes como ameaça, também encontra uma dupla central cativante e carismática, uma performance bizarra de Clifton Collins Jr. e muito gore. Diversão garantida. 4/5

Doctor Who – 10 anos

Doctor Who (2005-atualmente, BBC)

Showrunners: Russell T. Davies (temporadas 1 a 4), Steven Moffat (temporada 5 em diante)

Com: David Tennant, Matt Smith, Christopher Eccleston, Peter Capaldi, Billie Piper, Catherine Tate, Freema Agyeman, Karen Gillan, Arthur Darvill, Jenna Coleman, Alex Kingston, John Barrowman, Noel Clarke, Camille Coduri, Samuel Anderson, Elizabeth Sladen, John Simm, Michelle Gomez, Bernard Cribbins, Penelope Wilton, John Hurt, Frances Barber, Nicholas Briggs, Paul Kasey, Tom Baker, Paul McGann, Ingrid Oliver, Dan Starkey, Neve McIntosh, Caitrin Stewart, Jemma Redgrave.

Há exatos 10 anos, Rose Tyler salvava o Doutor durante um confronto com a Consciência Nestene, na primeira aventura do retorno daquela que é provavelmente a série de ficção científica mais longeva da história da TV. Doctor Who estreou na BBC em 1963, inicialmente como um programa educativo, estrelando um velhinho (William Hartnell, o 1º Doutor) que viajava para conhecer eventos históricos a bordo de sua Time and Relative Dimension in Space – TARDIS, uma máquina do tempo com o formato de uma cabine de polícia londrina dos anos 50 que é muito maior por dentro do que por fora. Daí em diante, tornou-se um fenômeno da TV britânica ao incluir um universo alienígena que nada deve a primos de gênero mais famosos como Star Wars ou Star Trek, sobrevivendo a mais de 50 anos e (até o momento) 13 encarnações canônicas do mesmo protagonista e rendendo um universo expandido que também inclui livros, HQs, games e audiodramas, além de duas séries spin-off (The Sarah Jane Adventures e Torchwood).

Os Doutores do revival: 9º (Christopher Eccleston), 10º (David Tennant), 11º (Matt Smith), 12º (Peter Capaldi) e o Doutor da Guerra (John Hurt)

Os Doutores do revival: 9º (Christopher Eccleston), 10º (David Tennant), 11º (Matt Smith), 12º (Peter Capaldi) e o Doutor da Guerra (John Hurt)

Longe das telas desde 1996, quando um telefilme tentou (sem sucesso) retomar a série interrompida em 1989, após 26 temporadas, Doctor Who voltou a conquistar público e crítica com seu revival em 2005, sob o comando de Russell T. Davies, que, acertadamente, optou por não “rebootar” a série, e sim por dar continuidade a ela a partir de onde tinha parado – claro, oferecendo uma importante justificativa para sua longa ausência. Mas como explicar porque a franquia continua bem-sucedida mesmo depois de tanto tempo?

Um motivo importante é, sem dúvida, que a própria mitologia da série se desenvolveu de modo a dificultar que ela se torne repetitiva. Exceto em circunstâncias excepcionais, os Senhores do Tempo (espécie a que o Doutor pertence) são capazes de evitar a morte regenerando-se num novo corpo que preserva as memórias e experiências do anterior, mas traz consigo novos traços de personalidade. Todos os Doutores do revival são bastante distintos entre si: Christopher Eccleston criou um Doutor mais seco e amargurado (e ainda bastante subestimado), reflexo de incidentes que antecedem a série; enquanto David Tennant conferiu uma energia frenética ao personagem, dando lugar aos modos que oscilam entre o infantil e o maníaco da encarnação seguinte, vivida pelo então desconhecido Matt Smith (ainda não cheguei na 8ª temporada, quando Smith foi substituído pelo veterano Peter Capaldi). Isso faz com que o Doutor seja um personagem muito difícil de esgotar, renovando-se constantemente.

O mesmo se aplica aos companions, parceiros de viagem, humanos comuns. Nesse sentido, Billie Piper, como a primeira, ganhou a tarefa de conhecer, junto do público, o universo fantástico do Doutor – convertendo, no processo, a simples Rose Tyler numa personagem inesquecível. Com os seguintes, acompanhamos suas descobertas como “iniciantes” e, claro, crescimento como personagens – destacando-se aí Donna Noble (Tate), que se transforma de uma figura irritante em sua primeira aparição para uma mulher de personalidade forte e enorme coração. Também merecem destaque alguns aliados que surgem de tempos em tempos: Sarah Jane Smith (Sladen), uma das companions mais populares da série original, o Capitão Jack Harkness (Barrowman) e, é claro, a imbatível River Song (Kingston), espécie de Indiana Jones espacial e mais badass.

Principais companions: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freema Agyeman), Donna Noble (Catherine Tate), Rory Williams (Arthur Darvill), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

Principais companions: Rose Tyler (Billie Piper), Martha Jones (Freema Agyeman), Donna Noble (Catherine Tate), Rory Williams (Arthur Darvill), Amy Pond (Karen Gillan) e Clara Oswald (Jenna Coleman).

No entanto, Doctor Who causa estranhamento – e por aquele que talvez seja o principal motivo de seu enorme sucesso: seu aspecto despretensioso de ficção científica B não significa nem por um segundo que não leva a si mesma ou seus personagens a sério – não no sentido de explicar logicamente aquele universo, um esforço fadado ao fracasso, mas de acreditar ferrenhamente em suas próprias possibilidades, por mais absurdas que estas sejam. Ora, a TARDIS ganhou desde o início a forma de uma cabine de polícia pelo fato de que a série começou com orçamentos reduzidíssimos e buscou manter-se fiel a esse estilo. A era Steven Moffat trouxe uma melhora monumental nos efeitos visuais, mas ela sempre funcionou graças às boas histórias, condução empolgante e elenco afiado – os “defeitos” visuais das primeiras temporadas não chegam a ser um grande problema se entrarmos no espírito da coisa. Afinal, só um fantástico trabalho de storytelling para convencer o público de que inimigos com um visual tão tosco como os Daleks são mais ameaçadores do que um Exterminador perseguindo John Connor – e convence.

Não se engane, no entanto: embora produzida para ser uma “série família”, Doctor Who não hesita em fazer seus personagens sofrerem: seus vilões são genuinamente ameaçadores, Daleks e Cybermen não raro produzem verdadeiros massacres, o Mestre é um antagonista doentio e os Anjos Lamentadores provavelmente lhe gerarão uma desconfiança permanente de estátuas. Além disso, o destino reservado aos companions por vezes confirma o perigo que é seguir o Doutor. Da mesma forma, a série acerta ao introduzir sem alarde questões raciais (especialmente na 3ª temporada, que tem Martha Jones como companion) e personagens LGBT (como Jack Harkness, que estrela Torchwood), além de ocasionalmente questionar as ações do Doutor (o trágico especial The Waters of Mars). A riqueza da série também é provada pela variedade constante de tons que assume, passando pela comédia (5.11 – The Lodger), o drama (5.10 – Vincent and the Doctor), o romance (2.04 – The Girl in the Fireplace), o épico (4.11, 12 e 13 – Turn Left, The Stolen Earth e Journey’s End) e o absoluto terror (6.09 – Night Terrors e a obra-prima 3.10 – Blink).

Contando com participações especiais de atores como Carey Mulligan, James Corden, Timothy Dalton, Michael Gambon, Felicity Jones, Simon Pegg, Kylie Minogue, Nick Frost, Liam Cunningham, Toby Jones, Mark Williams, Helen McCrory, Derek Jacobi, Jessica Hynes, Hugh Bonneville, Bill Nighy, Tamsin Greig e Andrew Garfield e roteiros ocasionais de figuras como Mark Gatiss (co-criador, junto de Moffat, da espetacular Sherlock), Richard Curtis e Neil Gaiman, a nova Doctor Who chega aos 10 anos sem dar sinais de perder fôlego. E que ainda possamos ter muitas aventuras com novos Doutores, novos companions, Daleks, Cybermen, Ood, Sontarans, Atraxi, Silurianos, Sycorax e outros alienígenas, em qualquer lugar do tempo e do espaço. Assim como a TARDIS, a série também não parece grande coisa à primeira vista…

Allons-y!

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

“Titanic”, conversões e 3D

(Há algumas semanas, assumi a editoria de Cinema do Nonada, site criado por colegas da faculdade de Jornalismo dedicado à cobertura da área cultural e com o qual colaborei no Oscar deste ano. Assim, o Sala de Projeção passará a linkar os conteúdos produzidos para o Nonada e, na medida do possível, produzir material apenas para o blog – o que, no momento, não é possível. Os posts mensais com comentários rápidos serão mantidos. Esta coluna traz um pouco sobre as conversões para o 3D, além de algumas palavras sobre o filme de James Cameron. E acompanhem o site, que é bem legal: Twitter e Facebook.)

“A lei norte-americana não protege nossos pintores, escultores, músicos, autores ou cineastas contra a distorção de suas obras, que pode arruinar suas reputações. Se algo não for feito agora para definir claramente os direitos morais dos artistas, as tecnologias atuais e futuras irão alterar, mutilar e destruir para as futuras gerações as sutis verdades humanas e os mais altos sentimentos humanos que indivíduos talentosos de nossa sociedade criaram. (…) Aqueles que alteram ou destroem obras de arte e nossa herança cultural visando o lucro ou mesmo como um mero exercício de poder são bárbaros – e se as leis dos Estados Unidos continuarem a permitir este comportamento, a história certamente nos classificará como uma sociedade de bárbaros. (…) Estes vandalismos atuais são apenas o começo. Hoje, engenheiros com seus computadores podem adicionar cores a filmes em preto-e-branco, modificar a trilha sonora, aumentar o ritmo e adicionar ou subtrair material que atendam aos gostos filosóficos do detentor dos direitos autorais. (…) Logo será possível criar um novo negativo ‘original’ com quaisquer alterações que o detentor dos direitos autorais deseje.”

Acredite se quiser, as palavras acima são trechos de um discurso proferido por George Lucas diante do Congresso dos EUA em 1988. Voltarei a elas a seguir.

LER COLUNA COMPLETA

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Titanic (Idem, EUA, 1997)

Direção e roteiro: James Cameron

Com: Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Susy Amis, Lewis Abernathy, Danny Nucci, Jason Barry, Ioan Gruffudd, Ewan Stewart e Jenette Goldstein.

Três gerações e contando: trajetórias da cinefilia portoalegrense

(Matéria produzida para o 3×4, revista da disciplina de Jornalismo Impresso III da Fabico-UFRGS).

Ainda que sua configuração tenha se alterado bastante ao longo das décadas, com as salas de cinema se mudando das calçadas para os multiplexes dos shoppings, Porto Alegre tem pouco a reclamar – ao menos, no que diz respeito ao número de salas disponíveis. Comparada com outras cidades, a capital gaúcha aindaconta com um significativo circuito alternativo. Logicamente, se retornarmos ao passado e à eferevescência cultural da década de 1960, encontramos em Porto Alegre não apenas uma robusta gama de opções, mas também uma crítica que, sem ser pedante nem rasteira, busca o melhor do valor artístico – seja na linguagem vanguardista de Jean-Luc Godard ou em um leve musical com Gene Kelly.

Entre o final dos anos 50 e início dos 60, o Clube de Cinema de Porto Alegre começa a render seus maiores frutos: além de Goida e de Hélio Nascimento, surgem nomes como Enéas de Souza e Jefferson Barros e, poucos anos mais tarde, José Onofre e Luiz Carlos Merten. Essa nova geração, bastante marcada pelo cinema norte-americano, contribuiu com importantes debates com a “velha crítica”, representada por P.F. Gastal e Jacob Koutzii. Estes davam preferência a um cinema com menos espaço comercial, alguns deles “de diretores que o tempo esqueceu”, segundo Hélio. Já os “novatos” tinham influência das ideias da célebre revista Cahiers du Cinéma, indicando a importância de cineastas até então subestimados, dentre os quais Alfred Hitchcock é o exemplo favorito: “Não é só uma pessoa ir ver um filme do Hitchcock e dizer ‘ah, levei susto’, tinha que mostrar que aquilo não era só sustos.”, diz Hélio. “Pra nós isso é que era importante. Pro Gastal parece que não era tanto”.

E Deus Criou a Mulher (Et Dieu… Créa la Femme, 1956)

A formação dessa vibrante cinefilia começa alguns anos antes, com a fundação do Clube de Cinema de Porto Alegre em 1948 por P.F. Gastal – que, conquistando um importante espaço cultural na cidade, logo ganhou sua contraparte: o Cineclube Pro Deo, fundado em 1953 pelo crítico Humberto Didonet, do Jornal do Dia (ligado à Igreja Católica). Ainda que houvesse um consenso entre os grupos na busca pelo melhor cinema, Goida lembra que o caráter conservador do Pro Deo rendeu ao Clube de Cinema o apelido irônico de “Pro Demo” – não só por seu caráter laico, mas também por grande parte de seus membros se identificarem com os ideais de esquerda. Previsivelmente moralista, era comum o Pro Deo condenar filmes mais sexualmente ousados, como E Deus Criou a Mulher, no qual Roger Vadim lançou uma jovem Brigitte Bardot como inquestionável sex symbol; e A Doce Vida, clássico de Federico Fellini onde Marcello Mastroianni seduz quase todas as mulheres do filme.

E, claro, em uma época de tanta oxigenação no mundo dos filmes – a Nouvelle Vague francesa, o Cinema Novo brasileiro, o Free Cinema britânico e o Novo Cinema americano -, havia um fértil terreno para que as salas porto-alegrenses explorassem os diferentes nichos, tanto as novidades quantos os clássicos: as sessões da meia-noite do Cine Vogue, com destaque para o neo-realismo italiano; o Cine Ópera, importante difusor da Nouvelle Vague; o Cinema Cacique, que promovia festivais anuais de cinema japonês. Apesar de muitos desses filmes serem exibidos sem legendas, atraíam um público considerável (um contraste revelador com os dias atuais, em que se prefere dublagem a acompanhar as legendas).

O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, 1925)

Antes do fatídico 31 de março de 1964, Porto Alegre foi palco de importantes eventos cinematográficos. Um dos grandes destaques foi o Ciclo de Cinema Russo e Soviético, em 62, onde (apesar das críticas do Pro Deo) a primeira exibição de O Encouraçado Potemkin excedeu os 2.000 lugares do Auditório da Reitoria da UFRGS (“Imagina, depois de dez, quinze anos de leitura sobre Potemkin, tu vai lá e vê o filme, é outra coisa.”, comenta Hélio). Ainda assim, o espectro censor já existia: um que por pouco não foi banido foi Rio 40 Graus, que teve sua importância ressaltada por Gastal ao trazer a Porto Alegre o filme e seu diretor, Nelson Pereira dos Santos. Após o golpe militar, a censura é ampliada, fazendo com que Gastal cancele os ciclos de cinema seguintes. Com a decretação do A.I.-5, em 1968, dezenas de filmes demorariam mais de dez anos para chegar aos projetores, em especial por sua ousadia política ou sexual.

A Vida de Brian (Monty Python’s Life of Brian 1979)

Mas essa geração cinéfila encontrou seu jeito de burlar a censura. Goida e Hélio comentam que a proximidade de Porto Alegre com Montevidéu, onde a censura era mais branda até mesmo no regime militar daquele país, possibilitou que os críticos gaúchos conferissem produções barradas no Brasil, como a Trilogia da Vida, de Pier Paolo Pasolini; Z, de Costa Gavras; O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci; A Aventura, de Claude Lelouch; e Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (ainda que este viesse acompanhado de bolinhas tapa-sexo). Nem mesmo Woody Allen se safou: a sátira política de Bananas e o humor picante de Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar), tiveram que ser conferidos em telas uruguaias.No entanto, brechas ocorreram: Jesus Cristo Superstar, de Norman Jewinson, e A Vida de Brian, do Monty Python, estrearam sem grandes problemas, apesar da irreverência com a religião. No campo político, O Assassinato de Trotsky, de Joseph Losey, passou pela censura após os militares deduzirem: “é uma briga entre comunistas, melhor passar pra verem como é ruim”, explica Hélio. “E o Trotsky morre no final.”, acrescenta Goida com uma risada.

Chegando aos anos 80, a ditadura agonizava, mas os cinéfilos ganhavam novas opções. A principal delas foi, sem dúvida, o Cine Bristol, que, com Romeu Grimaldi à frente das programações, organizou vários ciclos de diretores, atores e gêneros. Essa variedade de opções fez do cinema o favorito do Cineclube Humberto Mauro, que abrigou jovens nomes como Jorge Furtado, Carlos Gerbase, Giba Assis Brasil e Ana Luíza Azevedo antes que estes fundassem a Casa de Cinema de Porto Alegre. No final da década, Grimaldi foi demitido do Bristol, passando a dirigir a Cinemateca Paulo Amorim, função que exerceu até sua morte, em 1995. Por volta desta época, começa o declínio dos cinemas de calçada, com as salas migrando para os centros comerciais.

Hoje, o circuito alternativo de Porto Alegre subsiste, embora tenha perdido um certo espaço para os multiplexes cuja programação tende cada vez mais à mesmice. No entanto, certamente não existem muitas cidades que podem se orgulhar de ainda possuir espaços de apreciação da Sétima Arte tão diferenciados como o Guion Center, a Cinemateca Paulo Amorim, o Cine Bancários, e Sala P.F. Gastal e vários outros. Algo marcante para uma época em que muitos preferem dominar a tela de um DVD ao invés de serem dominados por uma tela de cinema.

Goida, pseudônimo de Hiron Goidanich, começou como crítico de cinema do jornal “Última Hora”, em 1959. Depois do fim do jornal na ditadura militar, assumiu a coluna em “Zero Hora”, posição que ocupou até sua aposentadoria, em 1995. Continua um membro ativo do Clube de Cinema de Porto Alegre até hoje. É autor de “Nas Primeiras Fileiras” e “Enciclopédia dos Quadrinhos” (que, em sua 2ª edição, é co-escrita com André Kleinert). (Foto: Sarita Reed)

Hélio Nascimento começou a escrever sobre cinema no “Jornal do Comércio” em 1961, cargo que ocupa até hoje. Também foi produtor e apresentador do programa “Cinema de Segunda a Segunda” na Rádio da UFRGS de 1972 a 1999. Assina como autor os livros “Cinema Brasileiro” e “No Reino da Imagem”. (Foto: Sarita Reed)

Como apresentar a saga Star Wars a não-iniciados

(Perdoem-me pelo post absurdamente extenso, mas achei esse texto tão interessante e curioso que me dei ao trabalho de traduzi-lo. Meu inglês não é 100%, mas acredito que tenha exposto a ideia principal do autor de forma correta. O texto foi escrito por Rod Hilton, que é desenvolvedor de software, em seu blog pessoal, Absolutely No Machete Juggling. Sua teoria é bem convincente e vale a pena ler até o final – mas SOMENTE se você já é familiar com a série. Se você nunca assistiu Star Wars – sério? -, quer saber por onde começar e o Google te trouxe aqui, NÃO LEIA o texto abaixo, pois obviamente está recheado de spoilers. Apenas siga esta ordem: IV, V, II, III e VI, ignorando o I. É estranho, mas faz sentido. Depois volte aqui para entender por que).

(Links para as Edições Desespecializadas Harmy mencionadas no texto (formato .mkv): Uma Nova Esperança (e legenda), O Império Contra-Ataca (e legenda), O Retorno de Jedi (e legenda). E legendas de Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith).

Star Wars: Suggested Viewing Order

Preparem-se, o que segue é um post incrivelmente longo sobre Star Wars.

Antes, me permitam dizer isso: aqueles que não se importam com a trilogia prequel, sugiro as Edições Desespecializadas Harmy. São discos Blu-ray 720p que são o resultado da reconstrução das versões originais de cinema da trilogia original feitas pelo “Harmy” do fórum The Original Trilogy usando várias fontes de vídeo. Fazer o download, gravar, rotular e imprimir capas para esses filmes é uma das coisas mais nerds que eu já fiz (além de escrever esse post) e estou extremamente feliz de tê-lo feito. Se a ordem correta de Star Wars para você é a trilogia original e nada mais, pare de ler agora e consiga as Edições Desespecializadas.

Mas o que fazer se você quer se envolver com a nova trilogia? Talvez você esteja exibindo os filmes a um público mais jovem que não consegue apreciar e desfrutar filmes com efeitos visuais datados. Talvez você não queira fazer download e gravar seus próprios discos, e comprar os Blu-rays oficiais esteja bom para você. Talvez você tenha aceitado que as versões originais de cinema não são mais consideradas canônicas, e você é um nerd que se importa com coisas do tipo. Droga, talvez você até goste da nova trilogia (sério?).

Seja qual for o motivo, se você está mostrando a alguém as edições oficiais de Star Wars pela primeira vez, você tem que decidir em qual ordem apresentará os filmes.

Duas escolhas

Há duas escolhas óbvias para assistir a saga Star Wars:

Ordem de lançamento: assistir aos filmes na ordem em que saíram, recriando a sua experiência com os filmes para um “não-iniciado”.

Ordem dos episódios: assistir aos filmes na ordem que George Lucas pretendia, começando com o Episódio I e seguindo direto até o VI.

Existem duas falhas críticas nas duas ordens, infelizmente, o que impede que ambas sejam apropriadas.

O problema com a ordem dos episódios é que ela acaba com a surpresa que Darth Vader é o pai de Luke. Se você acha que essa revelação não importa uma vez que já que é de domínio comum, sugiro que veja a expressão dessas crianças. Essa revelação é uma das mais chocantes da história do Cinema, e se um novato na série conseguiu evitar spoilers, assistir aos filmes na ordem dos episódios seria como assistir ao final de O Sexto Sentido antes do filme.

Outro problema com a ordem dos episódios é que a nova trilogia não tem realmente uma história. São apenas pano de fundo para a verdadeira história, que é a tentativa de Luke de destruir o Império e salvar o pai. Assistir três filmes auxiliares é entediante se você nunca viu os filmes cujas bases eles estabelecem. Ora, é por isso que George Lucas fez Star Wars (depois renomeado como Uma Nova Esperança) primeiro – era a história mais interessante que ele tinha em mente no momento. Iniciar alguém com o Episódio I é um jeito certo de garantir que a pessoa não terminará a franquia inteira.

Infelizmente, a ordem de lançamento é também um fracasso instantâneo, e o motivo é uma única tomada. Se você está assistindo às versões lançadas oficialmente, quando o Império é destruído e todos estão comemorando, Luke vê seus mentores, Ben Kenobi e Yoda, e a eles se junta subitamente… um adolescente sinistro qualquer que precisa cortar o cabelo. Colocar Hayden Christensen no final de O Retorno de Jedi, uma vez que ele não está em NENHUM dos outros filmes, transforma um final que deveria ser celebração em outro que é confuso para o espectador. E o fato que Christensen parece estar despindo alguém com os olhos não ajuda em nada.

Portanto, nenhuma das ordens realmente funciona. O que fazer?

Apresentando: a Ordem Machete

Como garantir que uma apresentação mantenha a revelação de Vader uma surpresa enquanto introduz o jovem Anakin antes do final de O Retorno de Jedi?

Simples, assista-os nesta ordem: IV, V, II, III, VI. Deve ter percebido que o Episódio I sumiu. Voltarei a isso em um instante.

Batizei isso de “Ordem Machete na chance improvável de que pegue, porque sou um babaca vaidoso (UPDATE: pegou!).

George Lucas parece acreditar que Star Wars é a história de Anakin Skywalker, mas não é – ao menos, não efetivamente. Anakin não tem um arco interessante – ele cede ao que é apresentado como uma tentação irresistível. Pode gerar identificação, mas não é tão interessante. Anakin só tem uma mudança cativante como personagem no final de Jedi, quando se redime, mas isso não é como personagem, mas como um objetivo – algo que o personagem pelo qual torcemos durante três filmes (Luke) conseguiu. Anakin é, nesse momento, uma representação personificada de toda a galáxia. Salvar Anakin do lado negro coloca um rosto humano na salvação da galáxia do Império, e prova que Luke estava certo em sua resistência a desistir do pai, ainda que suas tentativas de salvá-lo coloquem toda a missão em risco.

Com efeito, essa ordem mantém a história sobre Luke. É só quando nosso herói Luke é deixado com a questão fervente “meu pai realmente se tornou Darth Vader?” que fazemos um longo flashback para explicar que é verdade. Quando entendemos como seu pai passou para o lado negro, voltamos para a narrativa principal e vemos que Luke foi capaz de resgatá-lo e salvar o bem que havia nele, no que foi a única forma de derrotar o Império.

Colocar a trilogia prequel no meio (algo que o autor de um comentário apontou como chamada “ordem Ernst Rister”) permite que a série termine no seu verdadeiro encerramento (a destruição do Império) enquanto ainda começa com a jornada de Luke. O pano de fundo das prequels entra num momento perfeito, porque O Império Contra-Ataca termina num enorme cliffhanger. Han é congelado em carbonite, Vader é o pai de Luke, e o Império atacou duramente a Rebelião. Adiar a resolução desse cliffhanger torna tudo mais satisfatório quando O Retorno de Jedi é assistido.

Narrativamente, é como um filme que começa com uma grande abertura, e vai para “2 anos antes” por boa parte do filme até chegar no presente e na conclusão.

Por que pular o Episódio I?

Veja, não vou sentar aqui e discorrer sobre o quão ruim o Episódio I é. Não vou tentar fingir que o Episódio II é melhor ou dizer que o Episódio I arruinou minha infância ou algo do gênero. Não arruinou, é só um filme que não é muito bom.

O motivo para ignorar o Episódio I não é por ser ruim, mas por ser irrelevante. Se você aceitar meu argumento que a saga Star Wars é de fato sobre a jornada de Luke e sua decisão de aceitar o fardo heroico de salvar não apenas a galáxia do Império como também seu pai do lado negro, vai descobrir que tudo o que acontece no Episódio I é uma distração dessa história.

Sério, pense nisso apenas um minuto. Aponte quantas coisas puder que acontecem no Episódio I que de fato ajudem a desenvolver a história em algum episódio subsequente. Eu só consigo pensar em uma coisa, que mencionarei depois.

Todos os personagens estabelecidos no Episódio I são mortos ou removidos antes do fim (Darth Maul, Qui-Gon, Chanceler Valorum), não são importantes (Nute Gunray, Watto) ou desenvolvidos melhor em outro episódio (Mace Windu, Darth Sidious). Faz diferença se Palpatine teve um aprendiz antes do Conde Dooku? Não, Darth Maul é morto no final do Episódio I e nunca é mencionado novamente. Você pode muito bem assumir que Dooku foi o único aprendiz. Faz diferença se Obi-Wan foi treinado por Qui-Gon? Não, Obi-Wan está treinando Anakin no início do Episódio II, Qui-Gon é completamente irrelevante.

Busque em seus sentimentos, você sabe que é verdade! O Episódio I não interessa no fim das contas. Você pode começar a nova trilogia no Episódio II e não sentir falta de absolutamente nada. O texto de abertura do Episódio II estabelece tudo o que você precisa saber sobre os novos filmes: um grupo de sistemas quer deixar a República, eles são liderados pelo Conde Dooku e a Senadora Amidala vai votar na questão sobre a República criar um exército. Natalie Portman é chamada de Senadora Amidala duas vezes nos primeiros 4 minutos de filme, então não há problemas em saber quem é quem.

O que é removido?

Aqui estão algumas das coisas que você não precisa mais ter como parte da experiência de assistir Star Wars, graças ao corte do Episódio I.

– Praticamente nada de Jar Jar Binks. Jar Jar tem cerca de 5 falas no Episódio II e zero no III.

– Sem midichlorians. Só existe uma menção a midichlorians após o Episódio I, e no contexto soa como algo tão inofensivo como “DNA”.

– Sem Jake Lloyd. Desculpe, Jake, sua atuação é péssima e eu nunca realmente quis ver Darth Vader como um garotinho.

– Sem confusão Padmé/substituta da Rainha. Toda a subtrama com Padmé e sua sósia não faz nenhum sentido. É claro que isso era apenas para que as pessoas pudessem interagir com Padmé sem saber que ela era a Rainha, mas é algo completamente confuso e inútil.

– Relações mestre-e-aluno menos confusas: Darth Sidious treina o Conde Dooku, Obi-Wan treina Anakin. Não há outras relações de treinador/aprendiz para inchar a história. Com menos personagens para tratar, a história ganha mais foco.

– Nada sobre “disputas comerciais”. O “problema” do Episódio II é um grupo de sistemas que quer deixar a República. Isso é muito mais compreensível para uma criança do que disputas comerciais.

– Sem corrida de pods. Sério, quem liga a mínima? É uma sequência de ação em função de si mesma e que não acaba nunca. Um número enorme de furos sobre as apostas e a consequente libertação de Anakin também é removida.

– Sem nascimento virgem. Simplesmente não se sabe ou interessa quem é o pai de Anakin, e a sutil implicação de que é Palpatine desaparece.

Mas excluir o Episódio I não é meramente fingir que um filme ruim não existe. Assistir ao Episódio II logo após o V e ao Episódio III imediatamente antes do VI conta uma história melhor do que incluindo o Episódio I. De fato, acredito que conta a história de Luke melhor do que excluindo as prequels completamente.

Por que funciona melhor?

Como mencionei, é criada uma enorme tensão pelo cliffhanger no final do Episódio V. Isso também usa a trilogia original como moldura para os novos filmes. Vader larga essa bomba gigante de que ele é pai de Luke, então usamos dois filmes para provar que ele está dizendo a verdade, para então vermos como tudo se resolve. Quando Império foi lançado, muita gente pensou que Vader mentiu para Luke. Não foi provado “verdadeiro” até que Obi-Wan o confirmasse em Jedi, mas era imediatamente seguido da justificativa do “certo ponto de vista” de Obi-Wan. Inserir as prequels torna essa revelação um caso de “mostre, não conte” – não apenas ouvimos Obi-Wan contar; nós vemos.

Com a Ordem Machete, a experiência de assistir Star Wars começa com o filme que faz o melhor trabalho em estabelecer o universo Star Wars (Episódio IV) e termina com o desfecho mais satisfatório (Episódio VI). Também inicia a série com seus dois filmes mais consistentes, e permite que você nunca tenha que começar ou terminar sua experiência com uma porcaria. Dois filmes da história de Luke, dois filmes da história de Anakin, então um único filme que entrelaça e encerra as duas histórias.

Além disso, o Episódio I estabelece Anakin como um garotinho bonitinho, totalmente inocente. Mas o Episódio II o apresenta como alguém impulsivo e sedento de poder, o que torna seu caráter mais consistente no rumo de eventualmente se tornar Darth Vader. Obi-Wan jamais parece ter qualquer controle sobre Anakin, variando entre tratá-lo como um amigo (a primeira conversa deles no Episódio II) e tratá-lo como um aprendiz (a segunda conversa, junto com Padmé). Anakin nunca é uma criança despreocupada gritando “yippee!”, ele é um adolescente complexo à beira de explodir de raiva em quase todas as suas cenas. Faz muito mais sentido para Anakin sempre ter sido assim.

No início do Episódio II, Padmé se refere a Anakin como “aquele garotinho que conheci em Tatooine”. Os dois parecem quase da mesma idade em Episódio II, então o espectador pode concluir naturalmente que os dois foram amigos quando crianças. Isso esconde completamente a esquisitíssima diferença de idade entre ambos no Episódio I, o que confere mais credibilidade ao romance subsequente dos dois. Cenas em que se declaram um ao outro parecem se fundamentar numa amizade de infância que nunca vemos mas podemos assumir que está lá. Uma vez que esse relacionamento é o motivo da queda de Anakin para o lado negro, ser algo mais crível faz uma boa diferença.

Obi-Wan agora sempre tem uma barba em toda a duração da série, e Anakin Skywalker sempre veste preto. Uma vez que os dois personagens são vividos por atores diferentes (e são os únicos na série com tal distinção), tê-los com um visual consistente ajuda bastante a reforçar que são as mesmas pessoas.

Update: Den of Geek também escreveu um artigo esclarecedor sobre mais coisas (em inglês) que funcionam melhor na ordem Machete que eu não mencionei. Gosto particularmente da dimensão extra que ela dá a Yoda.

Que virada!

Essa ordem também preserva todas as reviravoltas da trama, e adiciona uma nova (ou melhor, a torna mais eficiente).

Como mencionado, a Ordem Machete preserva a surpresa que Darth Vader é o pai de Luke. Na mesma boa linha, também mantém a surpresa que “Yoda, o Mestre Jedi que treinou [Obi-Wan]” é o carinha verde em Dagobah. Foram duas descobertas para os cinéfilos da época e, embora seja pouco provável que a cultura ou caixas de cereal ou qualquer outra coisa não vá arruinar essas surpresas para alguém, no mínimo elas não são estragadas pela Ordem Machete.

George Lucas sabia que assistir aos filmes na ordem dos episódios eliminaria as surpresas de Vader e Yoda, então ele adicionou a surpresa de Palpatine para compensar – que o afável Senador Palpatine é na verdade o Lorde Sith responsável por criar o Império. Uma vez que não encontramos de fato o Imperador até o Episódio VI (só é visto em uma cena, num holograma, no V), essa ordem mantém a surpresa das prequels. A reviravolta é arruinada pelo Episódio I, que explica que Darth Sidious está manipulando a Federação do Comércio desde os primeiros minutos, mas ele aparece tanto em cena que fica muito óbvio que Sidious é Palpatine quando vemos o senador mais adiante.

Pulando o Episódio I e indo direto para o II, tudo o que ficamos sabendo é que o Conde Dooku lidera um movimento separatista, por conta própria. Dooku diz a Obi-Wan que o Senado está sob controle de um Lorde Sith chamado “Darth Sidious”, que nunca vimos até aqui. No final do filme, depois que Dooku foge de Geonosis, ele encontra seu “mestre”, que revela ser Darth Sidious. É a primeira vez que percebemos que o movimento separatista é na verdade controlado por Sidious, e é algo tão breve que não dá ao público muita chance de perceber que ele é Palpatine (lembre-se, ninguém jamais se referiu a “Imperador Palpatine” nesse ponto da série, ele é chamado apenas de “o Imperador” no Episódio V).

Abaixo está todo o tempo de tela de Sidious no Episódio II. Na Ordem Machete, esta é a única chance de perceber que o Chanceler Palpatine está por trás de tudo até sua tentativa de aliciar Anakin para o lado negro no Episódio III. Pessoalmente, ainda acho que fica meio na cara, dada a atuação arrepiante de Ian McDiarmid como Palpatine (além da covinha no queixo), mas pelo menos as crianças tem uma chance de não perceber isso antes da hora nessa ordem.

sidious

A ordem Machete também mantém a revelação de que Luke e Leia são irmãos uma surpresa; ela simplesmente move o momento para o Episódio III ao invés do VI, quando Padmé anuncia o nome da filha. Na verdade, a reviravolta é mais eficiente nesse contexto do que Obi-Wan simplesmente contar a Luke em O Retorno de Jedi. Descobrimos isso antes de Luke, e descobrimos que Padmé estava grávida de gêmeos junto com Obi-Wan, quando o dróide médico lhe conta (o que era desconhecido até aqui). O nome de Luke é o primeiro, então quando Padmé chama o outro bebê de “Leia”, a revelação é bem chocante. Na ordem de lançamento, a “reviravolta” vem quando Yoda diz a Luke que existe outro Skywalker em O Retorno de Jedi, e Luke adivinha que é Leia na cena seguinte, com o fantasma de Obi-Wan. Na ordem dos episódios, não existe qualquer surpresa, já que ainda não temos ideia de quem são Luke e Leia. Como um bônus adicional, agora há mais ou menos 5 horas de filme entre a descoberta de que eles são gêmeos e o momento que se beijaram.

O que funciona melhor?

O verdadeiro valor da Ordem Machete fica bem claro quando se assiste a O Retorno de Jedi.

Lembre-se, vemos no Episódio V que a visão de Luke na caverna de Dagobah é que ele se torna Darth Vader, então descobrimos que Vader é seu pai. Então assistimos aos Episódios II e III, nos quais seu pai vai para o lado negro a fim de proteger as pessoas que ama. Depois disso, voltamos ao Episódio VI, onde eventualmente Luke confronta o Imperador.

Na Ordem Machete, nunca vemos Anakin como criança; quando o vemos pela primeira vez, ele tem mais ou menos a mesma idade de Luke no Episódio IV. As reclamações incessantes de Hayden Christensen irritam bem menos agora, já que ajudam a estabelecer sua ligação com Luke, que era tão reclamão quanto ele no Episódio IV. Em outras palavras, como pulamos o Episódio I, os paralelos entre Luke e Anakin agora estão muito mais fortes. Vimos Obi-Wan treinar os dois, e nunca vimos alguém treinar o próprio Obi-Wan. O espectador conecta naturalmente a trajetória dos dois personagens até esse ponto, mais do que faria se tivesse incluído o Episódio I.

Quando vemos Luke pela primeira vez em O Retorno de Jedi, ele entra no palácio de Jabba e a trilha soa um pouco como a Marcha Imperial. A forma com que ele entra com a luz por trás não deixa claro se é Luke ou Vader, e quando finalmente o vemos, ele está todo vestido de preto. Então, ele estrangula os guardas de Jabba usando a Força, algo que somente Vader havia feito na série! Ninguém o vê fazendo isso.

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Quando ele confronta Jabba, ele o alerta de que levará seus amigos de volta. Diz a Jabba que ele pode lucrar com isso, “ou ser destruído”. Acabamos de ver Anakin fazer uma ameaça parecida a Obi-Wan, “não me obrigue a destruí-lo”. Mais adiante, ele diz a Jabba “não subestime meu poder”. A última vez que essa frase foi usada, foi no mesmo duelo com Obi-Wan. Quando assistimos a O Retorno de Jedi isoladamente, Luke parece apenas um pouco arrogante nessa cena. Assistindo-o logo após A Vingança dos Sith, a mensagem é clara: Luke Skywalker está no caminho para o lado negro.

Por que isso importa? Porque no final de O Retorno de Jedi, Luke enfrenta o Imperador. O Imperador explica que o ataque à nova Estrela da Morte é uma armadilha e que seus amigos vão morrer, e provoca Luke, dizendo para que pegue seu sabre de luz e tente matá-lo. O filme tenta criar uma tensão que Luke pode abraçar o lado negro, mas nunca foi muito convincente. No entanto, com o contexto dele seguindo os passos do pai e o pai usando o lado negro da Força para salvar pessoas, com os amigos de Luke sendo mortos do outro lado da janela da Estrela da Morte, tudo fica bem mais verossímil.

Pouco depois, Luke perde a cabeça e dá uma surra em Vader, claramente sucumbindo à sua raiva. Ele supera Vader com fúria e corta seu braço, exatamente como Anakin fez com Mace Windu no Episódio III. Com a verdadeira ameaça que Luke siga os passos do pai esclarecida ao assistir aos Episódios II e III antes do VI, a tensão da cena é muito elevada, e realmente melhora O Retorno de Jedi. Sim, assistir A Vingança dos Sith faz de O Retorno de Jedi um filme melhor, mais eficiente. Considerando que ele é o mais fraco da trilogia original, a melhora é mais do que bem-vinda.

O que não funciona melhor?

A ordem Machete não é perfeita. Existem algumas questões menores que são levantadas por assistir aos filmes nessa ordem.

A sequência de Kamino é um pouco confusa. Uma vez que os clonadores parecem estar “esperando” Kenobi, isso leva o espectador a se perguntar se ele apareceu no Episódio I criando o exército de clones ou coisa do tipo. Por mais hilário que seja, o Episódio I não explica nada nem torna essa cena menos mal-conduzida, mas o fato de que o espectador sabe que um filme foi pulado aumenta a confusão.

Qui-Gon é mencionado uma vez no Episódio II e uma vez no Episódio III. Por sorte, nas duas vezes em que é citado, sua relação com os personagens é resgatada, então funciona. Dooku diz a Obi-Wan que seu velho mestre Qui-Gon foi seu próprio aprendiz, e no Episódio III Yoda diz a Obi-Wan que Qui-Gon aprendeu a se comunicar após a morte. Fica tudo bem, só um pouco estranho.

Os Episódios II e III falam sobre Anakin ser parte de uma profecia que nunca é explicada (já que foi exposta no Episódio I). É uma pena, mas por outro lado, na última vez em que é mencionada no Episódio III, Yoda diz que ela pode ter sido mal-interpretada. Francamente, considero que a remoção de boa parte da “profecia” é mais uma força da Ordem Machete, mas não há como negar que ela é lembrada algumas vezes no Episódio III.

A parte mais fraca desta ordem é quando Anakin volta a Tatooine. Não sabemos que sua mãe foi escrava, e não sabemos que ele construiu C-3PO. Quando ele tem visões da mãe morrendo e volta, Watto diz que a vendeu. Não é algo que você espera ouvir sobre a mãe de um Jedi, então fica meio esquisito. Quando Anakin vai até a fazenda de umidade dos Lars, C-3PO o chama de “o criador” e eles agem como se fossem conhecidos, mas não está claro que Anakin construiu C-3PO. Isso chama bastante atenção para o fato de que um filme foi ignorado. Esse é o único elemento que realmente fica mais confuso ao pular o Episódio I.

Faça uma tentativa

Experimentei a ordem comigo mesmo, e muitas pessoas que encontraram este texto também tentaram, e a maioria delas parece ter realmente gostado. Da próxima vez que for assistir os Blu-rays, dê uma chance.

Você deve estar pensando se vale a pena pular o Episódio II e assistir apenas ao III, apenas para apresentar o jovem Anakin antes de O Retorno de Jedi. Não recomendo isso: todos os personagens que você precisa conhecer para o Episódio III que apareceram no I são reintroduzidos no II com um rápido diálogo, mas o Episódio III assume que você já sabe quem é quem. Além disso, o amor de Anakin por Padmé é a principal razão de sua queda para o lado negro, e a maior parte disso está no Episódio II. Finalmente, sem ver o exército de clones sendo criado no Episódio II, ver os Jedi lutando junto com eles no III soará extremamente confuso, já que eles se parecem quase como stormtroopers no III. Narrativamente, não acho que pular o Episódio II funcione.

Algumas pessoas alegam que o Episódio I não é tão ruim assim, e não deveria ser removido (repito: não é por ser ruim, mas é por não ser relevante para a jornada de Luke como II e III são). Muitos gostaram da corrida de pods ou Darth Maul ou Qui-Gon ou nasceram em 1992. Seja qual for sua razão, se quiser assistir ao Episódio I recomendo fazê-lo separadamente, como se fosse Uma História Star Wars. Afinal, a ordem Machete não interfere com o cânone – tudo é canonicamente compatível com o Episódio I (ou qualquer dos seguintes) porque não estamos falando de fan edits.

Muitas pessoas argumentaram que não sabemos por que Anakin cai para o lado negro, já que o motivo basicamente era porque Obi-Wan não estava pronto para treiná-lo, e só o fez por insistência de Qui-Gon antes de morrer. Na Ordem Machete, não há Qui-Gon, então fica um buraco. Mas o ponto é: realmente precisamos saber a razão de Anakin sucumbir ao lado negro? Não basta que seja tentador, e que ele imagine poder usá-lo para salvar a esposa? Essa é a parte que permite que o espectador se identifique – porque é “mais sedutor”. Além disso, pode-se usar o “por quê” numa eterna volta ao passado, mas ninguém exige que todos leiam a série Star Wars: Jedi Apprentice sobre Qui-Gon treinando Obi-Wan para que se entenda o que aconteceu antes do Episódio I.

Pouco depois de escrever este post, descobri que a namorada do meu cunhado, de idade universitária, jamais havia assistido qualquer filme Star Wars e quis assisti-los todos durante as férias de inverno. Armado com os novos Blu-rays, fomos assisti-los e mostrei a ela na Ordem Machete. Funciona muito melhor do que eu havia antecipado – quase como se fosse a ordem realmente pretendida. Existe um grande padrão aqui, que leva o espectador a uma série de altos e baixos emocionais. O Episódio IV termina com uma vitória que parece ter implicações sinistras, então o V é sombrio e com um cliffhanger não-resolvido. O II termina com uma vitória com implicações sinistras, então o III é sombrio e mais uma vez com um cliffhanger não-resolvido. Funciona incrivelmente bem, e quando o III terminou todos exigiram que assistíssemos imediatamente ao VI para ver como tudo iria se encaixar.

Talvez o mais importante de tudo, as falhas da ordem Machete parecem não ser problemáticas. Quando Anakin volta a Tatooine no Episódio II, a conversa com Watto imediatamente indicou que a mãe de Anakin era escrava. Ela perguntou por que Anakin nunca retornou para libertar a mãe logo após tornar-se um Jedi, mas o Episódio I não fornece a resposta para isso.

A coisa com a qual ela mais teve problemas foi quando Leia e Luke conversam em O Retorno de Jedi, e ela fala como se lembra da mãe, da “mãe verdadeira” (então Leia claramente sabe que foi adotada). Com alguns filmes entre III e VI, é possível esquecer essa fala, mas assistindo o VI logo após o III fez ela parar e perguntar “peraí, o quê? Como ela se lembra da mãe?”. Não há como contornar esse ponto de confusão; assistir ao Episódio I ou à série toda em qualquer outra ordem não ajuda.

Perguntei a ela se achava Jar Jar insuportável e ela perguntou “quem é Jar Jar?”. Missão cumprida.

Tradução do post original de Rod Hilton.

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