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Filmes de setembro/2013

Distrito 9 (District 9, EUA/Nova Zelândia/Canadá/África do Sul, 2009. Direção: Neill Blomkamp. Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell. Com: Sharlto Copley, David James, Vanessa Haywood, Louis Minaar, Jason Cope, Mandla Gaduka, Robert Hobbs, Jed Brophy e Eugene Khumbanyiwa.) Falha por iniciar com uma estrutura narrativa inspirada no documentário cuja trama não permite que seja usada até o desfecho. Felizmente, Distrito 9 compensa essa falha ao permitir diversas leituras alegóricas a partir de sua temática alienígena, não hesitando (ao contrário da tendência atual dos filmes de ação) em empregar cenas bastante gráficas de violência. Além de excepcionais efeitos visuais (as criaturas possuem um visual extremamente verossímil), merece destaque a belíssima atuação de Sharlto Copley. 4/5

A Espuma dos Dias (L’Écume des Jours, França/Bélgica, 2013. Direção: Michel Gondry. Roteiro: Michel Gondry e Luc Bossi. Com: Romain Duris, Audrey Tautou, Omar Sy, Gad Elmaleh, Aïssa Maïga, Charlotte Lebon, Sacha Bourdo, Philippe Torreton e Alain Chabat.) Traz os atores confortáveis em tipos que assumem de forma recorrente (Duris e Tautou formam um casal adorável) em uma comédia romântica simpática que só não cai no convencional absoluto pelo terceiro ato atípico (e que não funciona muito bem) e, claro, pelas costumeiras trucagens de Gondry, que dá ao filme um ar surreal e o transforma num espetáculo visual que lhe confere um interesse que, em mãos menos criativas, não despertaria. 3/5

Las Acacias (Idem, Argentina, 2011. Direção: Pablo Giorgelli. Roteiro: Pablo Giorgelli e Salvador Roselli. Com: Germán de Silva, Hebe Duarte e Nayra Calle Mamani.) Estudo de personagens minimalista e sensível, consegue criar uma atmosfera de profunda melancolia a partir de pouquíssimos diálogos e das atuações repletas de sutilezas de Silva e Duarte. A abordagem simples e direta de Giorgelli também contribui para que nos tornemos íntimos dos personagens e percebamos as menores alterações em seu comportamento. 5/5

Código de Honra (Puncture, EUA, 2011. Direção: Adam Kassen e Mark Kassen. Roteiro: Chris Lopata. Com: Chris Evans, Mark Kassen, Marshall Bell, Brett Cullen, Jesse L. Martin, Vinessa Shaw, Roxanne Hope, Kate Burton, Erinn Allison, Tess Parker, Matt Hill e Michael Biehn.) Embora sua denúncia sobre a falta de segurança oferecida aos profissionais da saúde (e, por consequência, a seus pacientes) certamente seja relevante, o filme acaba se destacando apenas pela performance surpreendentemente densa de Chris Evans, já que a abordagem cinematográfica convencional e o roteiro esquemático o tornam facilmente esquecível (ou não, se considerarmos as elipses novelescas particularmente horrendas). 3/5

Além da Escuridão: Star Trek (Star Trek Into Darkness, EUA, 2013. Direção: J.J. Abrams. Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci e Damon Lindelof. Com: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Zoë Saldana, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Benedict Cumberbatch, Alice Eve, Peter Weller, Bruce Greenwood, Noel Clarke, Deep Roy e Leonard Nimoy.) Fazendo jus aos rumos que a franquia assumiu no reboot de 2009, Abrams entrega um novo capítulo recheado de ação e humor de primeira qualidade, além de um subtexto político sutil no caráter dúbio dos dirigentes da Federação (e Cumberbatch cria um vilão absolutamente memorável que figura desde já entre os melhores da franquia). Mas se as referências aos filmes anteriores funcionam na maior parte do tempo (em especial um incidente similar a outro visto em A Ira de Khan, capaz de recriar o mesmo impacto), o mesmo não pode ser dito do desfecho decepcionante, que pouco exibe da coragem narrativa passada. 4/5

Rambo III (Idem, EUA, 1988. Direção: Peter MacDonald. Roteiro: Sylvester Stallone e Sheldon Lettich. Com: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Marc de Jonge, Kurtwood Smith, Spiros Focás, Sasson Gabai, Deoudi Shoua, Randy Raney e Shaby Ben-Aroya.) Nem A Batalha da Rússia (documentário pró-URSS dirigido por Frank Capra durante a Segunda Guerra) representa uma ironia histórica tão esdrúxula quanto este Rambo III, que coloca o personagem-título lutando ao lado dos bravos guerreiros rebeldes de… Osama bin Laden. Demonstrando mais uma vez sua rasa visão política e empregando as mais ridículas caricaturas da Guerra Fria, Stallone jamais exibe um milésimo da complexidade de sua excelente performance no original. Dramaticamente pífio, nem as cenas de ação mostram a mesma energia, tornando-se cansativas com o passar do tempo (embora algumas frases de efeito se destaquem e, claro, a ação seja de uma época em que as pessoas sangravam nesses filmes). Se alguma vez transformar algo em franquia foi um erro, esse algo foi Rambo. 1/5

Muito Barulho por Nada (Much Ado About Nothing, EUA, 2012. Direção e roteiro: Joss Whedon. Com: Alexis Denisof, Amy Acker, Fran Kranz, Jillian Morgese, Clark Gregg, Reed Diamong, Sean Maher, Riki Lindhome, Spencer Treat Clark, Ashley Johnson, Emma Bates, Tom Lenk, Paul Meston e Nathan Fillion.) Ao invés de adaptar a peça de Shakespeare aos dias atuais, Whedon simplesmente a encena em ambientação moderna, mantendo todas as referências medievais e o fraseamento arcaico do texto do bardo. O resultado é curioso ao escancarar uma frivolidade do texto que talvez não ficasse clara numa adaptação “séria” (a trama repleta de fofocas e manipulações amorosas se prestaria facilmente a uma comédia adolescente) ao mesmo tempo que mantém o frescor da história, que se mostra uma comédia divertidíssima. No entanto, por mais que Denisof e Acker divirtam com as turras entre Benedito e Beatriz, o filme peca pela demora em estabelecer o casal como centro narrativo. 4/5

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 (The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 1, EUA, 2011. Direção: Bill Condon. Roteiro: Melissa Rosenberg. Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Taylor Lautner, Peter Facinelli, Elizabeth Reaser, Billy Burke, Ashley Greene, Nikki Reed, Jackson Rathbone, Kellan Lutz, Gil Birmingham, Sarah Clarke, Anna Kendrick, Justin Chon, Christian Camargo, Maggie Grace, Mía Maestro, Booboo Stewart, Chaske Spencer, Julia Jones, Carolina Virguez e Michael Sheen.) Com ainda menos material que os antecessores para esticar em suas duas horas de duração (o que não deixa de ser espantoso), Amanhecer – Parte 1 só não se torna uma tortura insuportável pela presença constante de cenas involuntariamente hilárias (com destaque para as que se passam no Brasil). Além disso, nada faz além de repetir a mesmíssima dinâmica dos três aborrecidos filmes anteriores, com todos os elementos já conhecidos: diálogos melosos, o constante ar de apatia de Kristen Stewart, misoginia, fotografia de luzes cafonas e efeitos visuais inaceitavelmente péssimos para uma produção desse porte. 1/5

Filmes de agosto/2013

Wolverine – Imortal (The Wolverine, EUA, 2013. Direção: James Mangold. Roteiro: Scott Frank e Mark Bomback. Com: Hugh Jackman, Tao Okamoto, Rila Fukushima, Hiroyuki Sanada, Haruhiko Yamanouchi, Brian Tee, Svetlana Khodchenkova, Will Yun Lee e Famke Janssen.) Apesar de um roteiro trôpego que mal consegue conferir sentido às intenções dos vilões, Imortal se mostra um entretenimento bastante superior à tentativa solo anterior do mutante, conseguindo desenvolvê-lo moderadamente e trazê-lo em sequências de ação frequentemente eficazes. Além disso, o cenário japonês é bem aproveitado, assim como a sidekick vivida pela carismática Fukushima. Mas é um indicativo da qualidade mediana do filme que sua melhor cena encontre-se entre os créditos finais. 3/5

Enrolados (Tangled, EUA, 2010. Direção: Nathan Greno e Byron Howard. Roteiro: Dan Fogelman. Vozes de: Mandy Moore, Zachary Levi, Donna Murphy, Ron Perlman, M.C. Gainey, Jeffrey Tambor, Brad Garrett, Paul F. Tompkins, Richard Kiel e John DiMaggio.) Mesmo que não se equipare aos melhores filmes já realizados pela Disney, Enrolados parece indicar que o estúdio vem se reerguendo em qualidade após uma década marcada por obras que oscilavam entre o aceitável e o deplorável. Apesar da desnecessária narração em off e da trilha pouco inspirada de Alan Menken (o que aconteceu com o responsável pelas canções inesquecíveis de A Pequena Sereia, A Bela e a Fera e Aladdin?), Enrolados se mostra surpreendentemente divertido ao atualizar sua protagonista, que surge como uma das figuras femininas mais ativas da história do estúdio – em contraste com um anti-herói que beira o patético. 4/5

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, EUA, 1985. Direção e roteiro: Woody Allen. Com: Mia Farrow, Jeff Daniels, Danny Aiello, Irving Metzman, Stephanie Farrow, Edward Herrmann, John Wood, Deborah Rush, Van Johnson, Zoe Caldwell, Karen Akers, Milo O’Shea, Alexander Cohen, John Rothman e Dianne Wiest.) Uma impecável homenagem ao Cinema que representa um trabalho particularmente sensível de Allen, que, mesmo com sua curta duração (apenas 82 minutos), leva o espectador a uma série de altos e baixos emocionais que incluem cenas divertidíssimas, românticas e um desfecho de partir o coração do mais ranzinza dos espectadores. 5/5

As Sessões (The Sessions, EUA, 2012. Direção e roteiro: Ben Lewin. Com: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, Rhea Perlman, W. Earl Brown, Robin Weigert, Ming Lo, Blake Lindsley e Jarrod Bailey.) Inesperadamente engraçado para um tema que poderia gerar um verdadeiro dramalhão, As Sessões ainda assim é um filme que trata do sexo com absoluta maturidade, conferindo ao ato uma dimensão poética e quase sacra (valores bastante presentes na vida de seu protagonista). Contribuem para isso as excepcionais performances de Hawkes, Macy e, principalmente, Hunt, que sem dúvida merecia um Oscar por sua total entrega ao papel. 4/5

Atlantis: O Reino Perdido (Atlantis: The Lost Empire, EUA, 2001. Direção: Gary Trousdale e Kirk Wise. Roteiro: Tab Murphy. Vozes de: Michael J. Fox, James Garner, Cree Summer, Claudia Christian, Corey Burton, John Mahoney, Phil Morris, Don Novello, Jacqueline Obradors, Florence Stanley, Jim Varney, David Ogden Stiers e Leonard Nimoy.) Marco da má fase que a Disney enfrentou na década passada, Atlantis decepciona menos pela própria fragilidade do que pelo desperdício de uma premissa que poderia render um filme espetacular (como uma aventura de Indiana Jones). Se a inclusão de certos elementos mais adultos é uma surpresa positiva (como uma fumante compulsiva e a vilã que surge em sua primeira cena como uma legítima femme fatale), o interesse que o projeto poderia despertar é destruído pela galeria de personagens aborrecidos e sem carisma, pelo roteiro confuso que jamais consegue esclarecer as regras que regem os poderes de Atlantis e – a surpresa mais espantosa – por uma animação de qualidade estética muito inferior à da maioria das obras da Disney da década de 90. 2/5

Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope, EUA, 1977. Direção e roteiro: George Lucas. Com: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Alec Guinness, David Prowse, Peter Cushing, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Phil Brown, Shelagh Fraser, Garrick Hagon, Dennis Lawson e a voz de James Earl Jones.) (Revisão da série baseada na ordem alternativa proposta neste texto) Apesar da dificuldade de Lucas de articular melhor alguns de seus diálogos, este clássico consegue a proeza de estabelecer um universo inteiro e repleto de detalhes em apenas duas horas, empregando, para isso, todos os recursos a seu dispor: personagens carismáticos preparados para se tornarem ícones, uma trama “Bem X Mal” simples mas cativante, uma trilha sonora inesquecível de John Williams e efeitos visuais que revolucionaram as técnicas do campo. 4/5

Star Wars: Episódio V – O Império Contra-Ataca (Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, EUA, 1980. Direção: Irvin Kershner. Roteiro: Leigh Brackett e Lawrence Kasdan. Com: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, David Prowse, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Jeremy Bulloch, Kenneth Colley, Dennis Lawson, Julian Glover, Alec Guinness e as vozes de Clive Revill, Frank Oz e James Earl Jones.) Melhor exemplar de toda a série, O Império Contra-Ataca busca mergulhar na mitologia estabelecida no filme original, ampliando a grandiosidade daquele universo e levando os arcos dramáticos dos personagens para rumos então inesperados. Além do excelente senso de humor, este exemplar ainda proporciona momentos dramáticos intensos, uma direção de arte espetacular e peças musicais de John Williams ainda mais memoráveis. 5/5

Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones (Star Wars: Episode II – Attack of the Clones, EUA, 2002. Direção: George Lucas. Roteiro: George Lucas e Jonathan Hales. Com: Ewan McGregor, Hayden Christensen, Natalie Portman, Ian McDiarmid, Christopher Lee, Samuel L. Jackson, Anthony Daniels, Kenny Baker, Temuera Morrison, Daniel Logan, Silas Carson, Jimmy Smits, Ahmed Best, Jack Thompson, Joel Edgerton, Rose Byrne, Pernilla August e a voz de Frank Oz.) As cenas românticas são carregadas de diálogos tão constrangedores que é quase injusto criticar as atuações irregulares de Christensen e Portman, mas Lucas é bem-sucedido em criar uma trama que, além de curiosa em seu tom conspiratório, praticamente dispensa o problemático Episódio I. Contando com algumas das melhores sequências de ação de toda a franquia, Ataque dos Clones ainda tem a seu favor o ótimo Obi-Wan de McGregor, que funciona bem como versão jovem de Alec Guinness (e mesmo que o Conde Dooku não se equipare a Darth Vader, Christopher Lee consegue transformá-lo num vilão de peso). 4/5

Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith, EUA, 2005. Direção e roteiro: George Lucas. Com: Ewan McGregor, Hayden Christensen, Ian McDiarmid, Natalie Portman, Samuel L. Jackson, Jimmy Smits, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Temuera Morrison, Christopher Lee, Silas Carson, Ahmed Best, Keisha Castle-Hughes e as vozes de Frank Oz, Matthew Wood e James Earl Jones.) Apesar de alguns tropeços facilmente evitáveis e da performance medíocre de Christensen (que afunda de vez na segunda metade da produção), A Vingança dos Sith é extremamente bem-sucedido em retomar boa parte da atmosfera sombria de O Império Contra-Ataca, resultando em um novo ato operístico, triste e cheio de surpresas para a lógica geral da saga – surpresas capazes de levar o espectador a reavaliar várias das informações sobre os personagens das quais já dispõe. Merece destaque, ainda, a atuação assustadoramente calculista de McDiarmid. 5/5

Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi (Star Wars: Episode VI – Return of the Jedi, EUA, 1983. Direção: Richard Marquand. Roteiro: Lawrence Kasdan e George Lucas. Com: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Billy Dee Williams, Ian McDiarmid, David Prowse, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, Kenneth Colley, Dennis Lawson, Warwick Davis, Jeremy Bulloch, Sebastian Shaw, Alec Guinness e as vozes de Frank Oz e James Earl Jones.) É pena que elementos como os Ewoks infantilizem tanto o resultado final, mas o cruzamento dos arcos dramáticos de Luke e Darth Vader torna-se infinitamente mais eficaz nesta ordem, conduzindo a um clímax sombrio e impecável – e que, somado à emocionante batalha espacial, é mais do que suficiente para, apesar dos tropeços, encerrar a saga com chave de ouro. Que J.J. Abrams e a Disney não a destruam. 4/5

(OBS: a versão original dos filmes mais antigos é, inquestionavelmente, a melhor de se assistir. Não apenas para que os filmes de fato pareçam produtos dos anos 70/80, sem efeitos digitais que não combinam com o restante da imagem, como também para descartar as intervenções mais estúpidas que Lucas incluiu ao longo dos anos – como o constrangedor número musical no primeiro terço de O Retorno de Jedi e a cabeça de Hayden Christensen no desfecho.)

Hannah Arendt (Idem, Alemanha/Luxemburgo/França, 2012. Direção: Margarethe von Trotta. Roteiro: Pam Katz e Margarethe von Trotta. Com: Barbara Sukowa, Alex Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Ulrich Noethen, Michael Degen, Nicholas Woodeson, Victoria Trauttmansdorff, Friedericke Becht e Klaus Pohl.) Está para Eichmann em Jerusalém mais ou menos como Capote está para A Sangue Frio: um retrato sóbrio e brilhante do processo de criação de uma obra polêmica. Jamais cansativo mesmo com um roteiro que se firma em muito diálogo, o filme funciona muito bem como introdução a algumas das interessantes ideias da personagem-título acerca da política e das relações humanas, resultando numa obra intelectualmente satisfatória e rica em ironias narrativas (se o negócio da diretora von Trotta é fazer filmes sobre mulheres alemãs notáveis – dirigiu uma cinebiografia de Rosa Luxemburgo também estrelada pela excelente Sukowa -, bem que poderia fazer um filme sobre Olga Benario…). 5/5

Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais, França, 2012. Direção: Christian Vincent. Roteiro: Christian Vincent e Etienne Comar. Com: Catherine Frot, Arthur Dupont, Jean d’Ormesson, Hippolyte Girardot, Jean-Marc Roulot, Philippe Uchan, Brice Fournier, Hervé Pierre, Thomas Chabrol e Arly Jover.) Frot até conquista o espectador ao criar uma figura feminina forte e carismática – mas não a ponto de salvar o filme no qual se encontra, que logo revela não possuir uma história interessante o bastante para preencher seus breves 95 minutos. Incapaz de estabelecer com clareza até mesmo o tempo coberto pela trama (o que pensamos ser um espaço de poucas semanas enfoca, na verdade, quase 2 anos), o roteiro insere constantes cenas futuras que prejudicam ainda mais o já frágil ritmo do filme. Com valores estéticos igualmente genéricos, Os Sabores do Palácio é meramente um “filme-guia gastronônico”, já que suas várias imagens de iguarias só deixam o espectador com fome. 2/5

Amor Pleno (To the Wonder, EUA, 2012. Direção e roteiro: Terrence Malick. Com: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Charles Baker e Marshall Bell.) Ao abrir mão de personagens bem definidos ou uma trama minimamente delineada, Malick acaba criando um espetáculo visual que sem dúvida enche os olhos, mas cujo conteúdo depende exclusivamente da subjetividade do espectador para fazer qualquer sentido, revelando uma auto-indulgência ainda maior do que a do superestimado A Árvore da Vida. Há um filme muito mais interessante no personagem de Javier Bardem do que na longa e aborrecida “trajetória” do sujeito vivido por Affleck. 2/5

007 Contra Goldfinger (Goldfinger, Reino Unido, 1964. Direção: Guy Hamilton. Roteiro: Richard Maibaum e Paul Dehn. Com: Sean Connery, Honor Blackman, Gert Fröbe, Shirley Eaton, Tania Mallet, Harold Sakata, Bernard Lee, Martin Benson, Lois Maxwell, Cec Linder, Austin Willis, Bill Nagy, Nadja Regin, Peter Cranwell, Burt Kwowk e Desmond Llewelyn.) Ainda que o roteiro não conte com uma trama tão elaborada quanto a do excepcional antecessor (e, claro, tenha sua parcela de elementos que envelheceram mal), Goldfinger supera seus antecessores em termos de ação, sendo bem sucedido em criar uma tensão crescente e personagens cativantes – não é à toa que Goldfinger e Pussy Galore permanecem entre as figuras mais lembradas da franquia. 4/5

A Fortaleza Escondida (Kakushi-Toride No San-Akunin, Japão, 1958. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Ryûzo Kikushima, Hideo Oguni, Shinobu Hashimoto e Akira Kurosawa. Com: Toshiro Mifune, Minoru Chiaki, Kamatari Fujiwara, Misa Uehara, Toshiko Migushi, Eiko Miyoshi, Susumu Fujita e Takashi Shimura.) É citado por George Lucas como uma das maiores influências sobre o Star Wars original – não em termos de trama, que é distinta, mas de elementos narrativos (C-3PO e R2-D2 são claramente inspirados na dupla de ladrões presente aqui) e do espírito contagiante de aventura. É um trabalho de apelo bem mais comercial de Kurosawa, mas não por isso menos eficaz, incluindo sequências de ação tensas e bem orquestradas e uma atuação de Mifune que surpreende pela sobriedade inabalável (comparado a seus desempenhos em Rashomon e Os Sete Samurais). 4/5

Confissões de um Jovem Apaixonado (Confession of a Child of the Century, França/Alemanha/Reino Unido, 2012. Direção e roteiro: Sylvie Verheyte. Com: Pete Doherty, Charlotte Gainsbourg, August Diehl, Lily Cole, Volker Bruch, Guillaume Gallienne, Karole Rocher, Rhian Rees e Diana Stewart.) Supostamente buscando retratar a geração “mal-do-século” do Romantismo, proporciona apenas duas (e duras) horas de tédio absoluto. O difícil é decidir o que é pior: o roteiro que vai e volta sem chegar a lugar nenhum ou a absoluta inexpressividade do músico Pete Doherty, que deveria ter ficado no estúdio de gravação. Pena ver o esforço de Gainsbourg e valores de produção competentes sendo desperdiçados em um projeto tão aborrecido. 1/5

Filmes de janeiro-fevereiro/2013

A última vez que publiquei a lista mensal foi em agosto – um absurdo motivado pelo semestre mais cheio de trabalho da faculdade.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor, Suécia/Alemanha/Dinamarca/Noruega. Direção: Niels Arden Oplev. Roteiro: Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg. Com: Michael Nykvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Sven-Bertil Taube, Peter Haber, Peter Andersson, Marika Lagercrantz, Stefan Sauk, Annika Halin e Ewa Fröling.) Inferior à refilmagem de David Fincher em todos os sentidos, esta versão sueca só não é um desperdício completo em função da forte performance de Noomi Rapace como Lisbeth Salander. De resto, uma direção burocrática e sem atmosfera, um protagonista aborrecido e um roteiro desajeitado. Em suma, um filme que jamais vai além do convencional. 2/5

Following (Idem, Reino Unido, 1998. Direção e roteiro: Christopher Nolan. Com: Jeremy Theobald, Alex Haw, Lucy Russell, John Nolan, Dick Bradsell e Jennifer Angel.) Estreia de Nolan na direção de longas, Following abarca boa parte dos temas de sua filmografia, com elementos que retornaram em Amnésia e A Origem (e há até um adesivo do Batman colado numa porta) – e já mostra um domínio de narrativa invejável, surpreendendo com uma trama enganosamente simples até os segundos finais. 4/5

Detona Ralph (Wreck-It Ralph, EUA, 2012. Direção: Rich Moore. Roteiro: Phil Johnston e Jennifer Lee. Vozes de: John C. Reilly, Sarah Silverman, Jack McBrayer, Jane Lynch, Alan Tudyk, Mindy Kaling, Joe Lo Truglio, Dennis Haysbert, Edie McClurg e Ed O’Neill.) Afastando-se da escola Dreamworks por usar as referências aos games a fim de compor seu universo, e não como um fim em si mesmas, Detona Ralph é o melhor produto entregue pela Disney em anos: investe numa história divertida povoada por personagens interessantes e carismáticos, traz vilões ameaçadores e investe em cenas de ação cheias de energia e num design de produção vibrante e imaginativo. 4/5

Guerra ao Terror (The Hurt Locker, EUA, 2008. Direção: Kathryn Bigelow. Roteiro: Mark Boal. Com: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Christian Camargo, Christopher Sayegh, Sam Redford, Evangeline Lilly, David Morse, Ralph Fiennes e Guy Pearce.) Evitando criticar escancaradamente a invasão do Iraque (o que leva o filme a ser mal interpretado por alguns espectadores), Bigelow prefere concentrar-se na autenticidade dos eventos encenados, conduzindo, no processo, um brilhante estudo de personagem que enfatiza a desintegração da psique humana diante do conflito (numa crítica mais discreta que a maioria dos filmes do gênero, mas nem por isso menos eficiente). 5/5

Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012. Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Com: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, James Remar, Don Johnson, Michael Parks, Quentin Tarantino, M.C. Gainey, Zoe Bell, Robert Carradine, Michael Bowen, Tom Savini, Bruce Dern, Jonah Hill e Franco Nero.) Ainda que possua alguns excessos de roteiro e cenas que poderiam ser cortadas, Django soa bem menos prolixo que Bastardos Inglórios. Ao mesmo tempo, Tarantino volta a exercer sua característica de fazer filmes que são, essencialmente, sobre o próprio Cinema, fascinando com sua abordagem estética ao mesmo tempo que exibe a velha habilidade de criar diálogos longos e divertidos, personagens marcantes e sequências de ação sangrentas e bem montadas.  5/5

O Som ao Redor (Idem, Brasil, 2012. Direção e roteiro: Kléber Mendonça Filho. Com: Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W.J. Solha, Irma Brown, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Alberto Tenório, Nivaldo Nascimento, Mauricéia Conceição, Sebastião Formiga e Dida Maia.) Excelente estudo das relações entre as classes sociais brasileiras, O Som ao Redor funciona muito além de suas evidentes leituras sociológicas, criando uma narrativa bem amarrada que jamais soa pretensiosa ou entediante. Kléber Mendonça Filho, estreando em longas de ficção, é um novo nome forte do cinema brasileiro, realizando um trabalho narrativa e tecnicamente impecável. 5/5

Os Miseráveis (Les Misérables, Reino Unido/EUA, 2012. Direção: Tom Hooper. Roteiro: William Nicholson, Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer. Com: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Daniel Huttlestone, Aaron Tveit, Colm Wilkinson e Isabelle Allen.) Com a incrível história concebida por Victor Hugo e os números musicais quase sempre cativantes e eficazes, Os Miseráveis poderia ser um espetáculo inesquecível – mas não com a direção assustadoramente inepta de Tom Hooper, cuja incompetência no uso da câmera leva a um resultado ainda mais canhestro do que em O Discurso do Rei. No entanto, mesmo com clichês românticos, os equivocados personagens de Cohen e Carter e a ocasional falta de foco da narrativa, o filme consegue envolver devido às boas atuações (mesmo que Crowe cante mal) e à força dos personagens – e, de fato, aqui e ali dá relances do obra memorável que poderia ter sido. 3/5

A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, EUA, 2009. Direção: Ron Clements e John Musker. Roteiro: Ron Clements, John Musker e Rob Edwards. Vozes de: Anika Noni Rose, Bruno Campos, Keith David, Michael-Leon Wolley, Jennifer Cody, Jim Cummings, Peter Bartlett, Jenifer Lewis, John Goodman, Terrence Howard e Oprah Winfrey.) Clements e Musker são diretores muito melhores do que são roteiristas – e se isso já ficava claro em filmes divertidos como Aladdin e A Pequena Sereia, aqui é escancarado por um roteiro fraquíssimo cheio de personagens sem carisma que não faz jus à competência técnica e à imaginação da dupla ao retratar o lado místico da cultura negra de Nova Orleans. 2/5

Capote (Idem, EUA/Canadá, 2005. Direção: Bennett Miller. Roteiro: Dan Futterman. Com: Philip Seymour Hoffman, Clifton Collins Jr., Chris Cooper, Catherine Keener, Bruce Greenwood, Amy Ryan, Mark Pellegrino, John Maclaren, Bob Balaban, Allie Mickelson, R.D. Reid, Rob McLaughlin e C. Ernst Harth.) Carregado por uma atuação fabulosa de Hoffman, que consegue encarnar o personagem-título sem transformá-lo numa caricatura, Capote perde pontos por evitar questões delicadas da elaboração de A Sangue Frio, mas acerta no principal: transformar a relação entre o escritor e sua “fonte” no centro temático do filme (e Collins Jr. também faz um ótimo trabalho ao encarnar a instabilidade emocional de Perry Smith), resultando numa obra quase tão interessante quanto o livro cujo processo criativo a inspirou. 4/5

A Sangue Frio (In Cold Blood, EUA, 1967. Direção e roteiro: Richard Brooks. Com: Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Paul Stewart, Gerald S. O’Loughlin, Jeff Corey, John Gallaudet, James Flavin, John McLiam, Ruth Storey, Brenda Currin, Paul Hough, Mary Linda Rapelye, John Collins, Sammy Thurman e Charles McGraw.) Adaptação extremamente fiel da obra-prima de Capote, repete a proeza da versão literária ao abrir uma janela para a alma de Perry Smith. Nesse sentido, Robert Blake oferece uma atuação não menos que inesquecível ao abraçar as contradições de um sujeito capaz de oscilar em segundos de uma sensibilidade comovente à crueldade absoluta – e a fotografia belíssima e evocativa é uma atração à parte (a última confissão de Smith é especialmente memorável ao aludir a uma vida de tragédias e frustrações). 5/5

Amor (Amour, França/Alemanha/Áustria, 2012. Direção e roteiro: Michael Haneke. Com: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, Carole Franck, Dinara Drukarova e William Shimell.) Cru e sem fazer concessões, mas com toques ocasionais de singeleza, Amor não se entrega a momentos de sentimentalismo que sua trama comportaria facilmente: o que Haneke oferece é a dureza inexorável da velhice e da morte. Enriquecido pela abordagem formal discreta do cineasta e por atuações magníficas de Trintignant e Riva (aliás, o primeiro merecia ter sido mais reconhecido nas premiações), é um filme que dificilmente provocará lágrimas, mas a tristeza e as reflexões provocadas acompanham o espectador por bastante tempo. 5/5

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012. Direção e roteiro: David O. Russell. Com: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupan Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles, Paul Herman, Dash Mihok e Brea Bee.) Simpático e divertido, tem como diferencial as boas atuações do elenco principal (há boa química entre Lawrence e Cooper, e este último abandona o característico ar canastrão) e o tom flutuante do filme, que acompanha a instabilidade dos personagens ao mudar de atmosfera várias vezes de forma súbita. À medida que avança, no entanto, torna-se cada vez mais previsível e clichê (beijo com travelling circular? Francamente, David O. Russell!), desperdiçando a ótima hora inicial e deixando claro que seu sucesso nas premiações deve-se unicamente a Weinstein Company. 3/5

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, EUA, 2012. Direção: Behn Zeitlin. Roteiro: Lucy Alibar e Behn Zeitlin. Com: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana, Amber Henry, Henry D. Coleman, Jovan Hathaway e Hannah Holby.) Traz uma história bacana, uma cenografia impecável em seu ar miserável, um elenco desconhecido plenamente à vontade e a pequena Wallis numa performance bastante eficaz. Mas não é o bastante para ocultar os clichês surrados do filme – tanto do cinema indie quanto do tema com que lida, abusando de filmagem com câmera na mão e na narração em off que parece existir apenas para permitir a inclusão de frases de efeito. Não é filme digno de um Oscar ou de um Caméra d’Or, mas possui elementos que indicam que Zeitlin não é um nome a ser descartado. 3/5

As Aventuras de Pi (Life of Pi, EUA/Taiwan, 2012. Direção: Ang Lee. Roteiro: David Magee. Com: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Tabu, Rafe Spall, Adil Hussain, Ayush Tandon, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, Shravanthi Sainath e Gérard Depardieu.) Os quadros magníficos compostos por Ang Lee (e claro, os fantásticos efeitos visuais empregados para a concepção do tigre) já valeriam a experiência – e mesmo bobinha, a trama é envolvente o bastante para evitar que o filme torne-se algo puramente sensorial. Mesmo sem desenvolver plenamente seu curioso subtexto religioso, é um dos feel-good movies da vez, funcionando muito bem em sua proposta – mas o Oscar de Lee só se justifica pela falta de concorrentes melhores. 4/5

Filmes de agosto/2012

12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men, EUA, 1957. Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Com: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Martin Balsam, Jack Warden, E.G. Marshall, John Fielder, Jack Klugman, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber e Ed Begley.) Não bastasse ser uma obra anti-racista repleta de embates verbais memoráveis, ainda faz milagres ao conduzir uma mise-en-scène ágil e inteligente que mais do que compensa a história passar-se toda numa única sala. 5/5
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Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, EUA, 2007. Direção: Sam Raimi. Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi e Alvin Sargent. Com: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Thomas Haden Church, Topher Grace, Rosemary Harris, Bryce Dallas Howard, J.K. Simmons, James Cromwell, Bill Nunn, Ted Raimi, Elizabeth Banks, Dylan Baker, Theresa Russell, Perla Haney-Jardine, Michael Papajohn, Cliff Robertson, Willem Dafoe e Bruce Campbell.) A primeira hora até funciona razoavelmente, mas depois que o simbionte domina Peter Parker, torna-se impossível ignorar o festival de excessos a que o filme se entrega, incluindo muito mais vilões, interesses românticos e dilemas pessoais do que é capaz de lidar. Além disso, até as cenas de ação, mesmo intensas, não exibem a mesma inventividade do antecessor. 2/5

No Tempo das Diligências (Stagecoach, EUA, 1939. Direção: John Ford. Roteiro: Dudley Nichols. Com: John Wayne, Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine, Thomas Mitchell, Louise Platt, George Bancroft, Donald Meek, Tim Holt e Tom Tyler.) Sendo um dos principais responsáveis por estabelecer o cânone do western americano, não poderia deixar de fora: bandidos, índios, duelos, xerifes, damas e prostitutas. Incluindo alguns comentários políticos interessantes (ao menos, referentes aos EUA da época de lançamento), o filme surpreende por não ter perdido a energia mesmo com mais de 70 anos (há uma cena de perseguição sensacional) – e muito disso se deve à persona divertida de John Wayne. 5/5

A Casa Elétrica (Idem, Brasil/Argentina, 2012. Direção e roteiro: Gustavo Fogaça. Com: Nicola Siri, Jean Pierre Noher, Carmela Paglioli, André di Mauro, Juan Arena, Rafael Pimenta, Gilberto Perin, André Felipe, Morgana Kretzmann, Kevin Johansen, Helga Kern, José Fogaça e Leonardo Machado.) Infelizmente, A Casa Elétrica é muito prejudicado pela fraca montagem, batendo o recorde do fraco Em Teu Nome na quantidade de fade-outs espalhados pela projeção. Se isso acaba custando à fluidez do filme, ao menos sua interessante história não é totalmente desperdiçada: apostando em humor e drama sem levá-los a extremos, Fogaça constrói um filme que, mesmo falho, acerta em nos envolver com seus personagens – e o ar de “causo” que a narrativa assume em certos momentos (especialmente nos letreiros finais) lhe dá um charme moderado. Ainda merece ser destacada a boa performance de Nicola Siri – muito mais seguro em cena ao poder falar em sua língua natal na maior parte do tempo. 2/5

Toda Nudez Será Castigada (Idem, Brasil, 1973. Direção e roteiro: Arnaldo Jabor. Com: Paulo Porto, Darnele Glória, Paulo Sacks, Elza Gomes, Paulo César Peréio, Isabel Ribeiro, Henriqueta Brieba, Waldir Onofre, Orazir Pereira e Hugo Carvana.) Claro que alguns de seus aspectos envelheceram mal – mas acerta no tom típico de Nelson Rodrigues, que, por meio do exagero, ridiculariza brilhantemente seus principais personagens e as instituições sociais que representam. Hilário em vários momentos, só assume seu tom trágico ao tratar da prostituta Geni (Darlene Glória em grande atuação) – a figura mais próxima da honestidade e, claro, a que mais perde por conta disso. 4/5

O Ditador (The Dictator, EUA, 2012. Direção: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel e Jeff Schaffer. Com: Sacha Baron Cohen, Anna Faris, Ben Kingsley, Jason Mantzoukas, Aasif Manji, Chris Elliott, Adam LeFevre, Chris Parnell, John C. Reilly, Edward Norton, Garry Shandling e Megan Fox.) Sem jamais conseguir recriar a acidez de Borat, Cohen aposta aqui numa mistura de piadas escatológicas, humor negro, subtrama romântica e comentários políticos óbvios porém certeiros. E todas essas abordagens funcionam? Na ordem: “mais ou menos”, “sim”, “não” e “sim” – e isso é o bastante para que o filme sobreviva em meio a uma condução irregular. 3/5

Na Estrada (On the Road, França/Inglaterra/EUA/Brasil, 2012. Direção: Walter Salles. Roteiro: José Rivera. Com: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Alice Braga, Elizabeth Moss, Danny Morgan, Amy Adams, Viggo Mortensen, Steve Buscemi e Terrence Howard.) É fácil admirar racionalmente o espírito libertário de seus protagonistas. No entanto, fica difícil manter esse sentimento à medida que a projeção avança, quando suas piores características vêm à tona e torna-se impossível ignorar que são pessoas egoístas e manipuladoras. Além disso, a segunda metade da projeção falha em estabelecer uma ligação entre os eventos que apresenta, tornando-se episódico demais até para um road movie. Ao menos, Na Estrada apresenta um visual belo e eficiente para suas várias locações e – principalmente -, várias atuações ótimas, o que inclui Hedlund (superando a péssima impressão de Tron – O Legado) e Kristen Stewart. Há esperança no pós-Crepúsculo. 3/5

Eu Tinha Dezenove Anos (Ich War Neunzehn, Alemanha Oriental, 1968. Direção: Konrad Wolf. Roteiro: Wolfgang Kohlhaase e Konrad Wolf. Com: Jaecki Schwarz, Vasili Livanov, Aleksey Eybozhenko, Galina Pokskikh, Rolf Hoppe, Dieter Mann, Anatoli Solovyov, Klaus Manchen, Kurt Böwe, Mikhail Glusski, Kalmursa Rachmanov e Johannes Wieke.) Visão de um país comunista sobre a Segunda Guerra, fascina por jamais entregar-se a generalizações baratas sobre os papéis exercidos pelos envolvidos (assim, vemos o Exército Vermelho realizando execuções sumárias e oficiais nazistas demonstrando racionalidade). Contemplativo devido à própria natureza imatura do protagonista, possui uma certa estrutura de road movie ao fazê-lo conhecer figuras que surgem, dão seu recado e saem de cena – e vários deles deixam ecos na narrativa, como a refugiada alemã, o intelectual e o soldado cego. Além disso, o filme ganha força ao trazer imagens de arquivo do depoimento do guardião de um campo de extermínio: uma atuação dificilmente conseguiria repetir tal frieza. 5/5

Caminhos na Noite (Wege in die Nacht, Alemanha, 1999. Direção: Andreas Kleinert. Roteiro: Johann Bergk. Com: Hilmar Thate, Cornelia Schmaus, Henriette Heinze, Dirk Borchardt, Ingeborg Westphal e Daniela Hoffmann.) Possui seus momentos de inspiração, mas pouco se aprofunda nos vários aspectos políticos/éticos/humanos que sua interessante premissa poderia oferecer. 3/5

Filmes de julho/2012

Parceiros da Noite (Cruising, EUA, 1980. Direção e roteiro: William Friedkin. Com: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen, Richard Cox, Don Scardino, Jeo Spinell, Jay Acovone, James Remar, Arnaldo Santana, Randy Jurgensen, Gene Davis, Powers Boothe, Ed O’Neill e Allan Miller.) Um experimento corajoso ao retratar o lado mais underground da cena gay novaiorquina do fim dos anos 70 – e, justamente por isso, foi condenado tanto por conservadores quanto por liberais, o que levou Friedkin a uma decadência da qual demoraria para sair. Mesmo esbarrando num certo sensacionalismo com seu tema, o filme é eficiente como thriller, apresentando uma estrutura narrativa menos convencional para o gênero (que, no entanto, perde o ritmo em alguns momentos) e, claro, uma atuação inspiradíssima de Pacino. 3/5

Histórias que Só Existem Quando Lembradas (Idem, Brasil/Argentina/França. 2011. Direção: Júlia Murat. Roteiro: Maria Clara Escobar, Júlia Murat e Felipe Sholl. Com: Sônia Guedes, Lisa Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin e Antônio dos Santos.) Um delicado e contemplativo olhar sobre a terceira idade que surpreende por vir de uma cineasta jovem e jamais soa entediante mesmo com as constantes repetições das “mesmas” ações (que, dessa forma, chamam atenção sobre qualquer mínima diferença). É engrandecido por ótimas atuações de Guedes e Fávero e por uma bela fotografia. 4/5.

Jovens Adultos (Young Adult, EUA, 2011. Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Com: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser, Collette Wolfe, Richard Bekins, Jill Eikenberry, Mary Beth Hunt, John Forest e a voz de J.K. Simmons.) Com um roteiro de Cody mais contido que o de Juno (leia-se: sem referências e tiradas a cada minuto), Jovens Adultos soa bem mais honesto e sensível do que aquele filme. Trazendo Charlize Theron numa atuação excelente (e até cativante) como uma high school bitch que tem tudo para ser detestável, merecem destaque ainda a ótima trilha sonora e a bela performance de Patton Oswalt. 4/5.

Para Roma, Com Amor (To Rome with Love, EUA/Itália/Espanha, 2012. Direção e roteiro: Woody Allen. Com: Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Woody Allen, Judy Davis, Alison Pill, Ellen Page, Roberto Benigni, Alessandra Mastronardi, Greta Gerwig, Penélope Cruz, Flavio Parenti, Fabio Armiliato, Alessandro Tiberi, Riccardo Scarmacio, Antonio Albanese, Ornella Muti, Donatella Finocciaro e Vinicio Marchioni.) A impressão é de assistir a uma mera colagem de ideias que Allen descartou ao longo dos anos – e, mesmo que estabeleça um curioso cruzamento das linhas do tempo, não escapa a uma situação comum a antologias: que algumas tramas se sobreponham (em interesse e qualidade) às outras. No caso, a trama de Eisenberg/Baldwin se destaca pela construção cuidadosa, enquanto a de Benigni surge como uma alegoria excessivamente expositiva. 3/5

As Idades do Amor (Manuale d’Am3re, Itália, 2011. Direção: Giovanni Veronesi. Roteiro: Ugo Chiti e Giovanni Veronesi. Com: Robert De Niro, Monica Bellucci, Riccardo Scarmacio, Michele Placido, Laura Chiatti, Donatella Finocchiaro, Carlo Verdone, Valeria Solarino, Marina Rocco e Vittorio Emanuele Propizio.) Mesmo com um segundo terço relativamente divertido e uma atuação sensível de De Niro, soa apenas como uma mistura pouco inspirada de Simplesmente Amor, A Riviera Não é Aqui e qualquer um com um relacionamento de uma mulher com um homem mais velho. Contribui para esse quadro a direção equivocada, que chega ao ponto de expor pensamentos em voice-over. 2/5

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008. Direção: Jon Favreau. Roteiro: Mark Fergus, Hawk Otsby, Art Marcum e Matt Holloway. Com: Robert Downey Jr., Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Clark Gregg, Shaun Toub, Faran Tahir, Jon Favreau, Leslie Bibb, Bill Smitrovich, Fahrin Fazlin, Samuel L. Jackson e a voz de Paul Bettany.) O melhor dos cinco filmes que precedem Os Vingadores, traz Downey Jr. numa performance inspiradíssima que contribuiu para deslanchar sua carreira de vez. Apesar das motivações do vilão jamais ficarem claras e do confronto final mediano, traz uma versão coesa e interessante para a origem do Homem de Ferro e cenas de ação comandadas com energia e segurança. 4/5

Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, EUA, 2004. Direção: Sam Raimi. Roteiro: Alvin Sargent. Com: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Daniel Gillies, Donna Murphy, Dylan Baker, Bill Nunn, Ted Raimi, Elizabeth Banks, Vanessa Ferlito, Joel McHale, Cliff Robertson, Willem Dafoe e Bruce Campbell.) Expandindo as maiores virtudes de seu antecessor, este segundo exemplar é o mais sólido dos três dirigidos por Sam Raimi: além das excelentes sequências de ação (a do trem é formidável), inclui o bom humor típico do herói (e que pouco apareceu no anterior) e investe na humanização do personagem – o que inclui um segundo ato que praticamente abre mão dos confrontos para explorar as angústias e inseguranças do protagonista. 5/5

Batman Begins (Idem, EUA/Inglaterra, 2005. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan e David S. Goyer. Com: Christian Bale, Liam Neeson, Michael Caine, Gary Oldman, Katie Holmes, Cillian Murphy, Morgan Freeman, Tom Wilkinson, Larry Holden, Mark Boone Junior, Linus Roache, Rutger Hauer, Ken Watanabe, Colin McFarlane e Rade Serbedzija.) Mesmo ainda trazendo elementos que lhe dão cara de “filme de super-herói”, Nolan é bem-sucedido em situar Batman num universo triste e realista que funciona maravilhosamente bem com o personagem. Mesmo sem impressionar muito nas cenas de ação, Begins é uma história de origem bastante eficaz e traz Bale como o melhor intérprete do Homem-Morcego (além de um elenco secundário excelente). 5/5

Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, EUA/Inglaterra, 2008. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan. Com: Christian Bale, Heath Ledger, Michael Caine, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Monique Curnen, Chin Han, Eric Roberts, Colin McFarlane, Nestor Carbonell, Ritchie Coster, Joshua Harto, Anthony Michael Hall, Ron Dean, Melinda McGraw, Nathan Gamble, William Fichtner e Cillian Murphy.) Superando bastante o já brilhante filme anterior, O Caveleiro das Trevas tem mais a ver com épicos policiais do que com produções de super-herói: empregando uma trama extremamente complexa, seu fio condutor é a gradual e trágica regressão moral de Batman e de Harvey Dent. Leia-se: um show de torturas psicológicas que, colocadas em movimento pelo temível Coringa (Ledger numa atuação merecidamente aclamada), fazem de TDK tanto uma história inteligentíssima quanto uma montanha-russa emocional intensa e exaustiva. 5/5

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, EUA/Inglaterra, 2012. Direção: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan. Com: Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Morgan Freeman, Matthew Modine, Ben Mendelsohn, Alon Aboutboul, Burn Gorman, Daniel Sunjata, Juno Temple, Nestor Carbonell, Cillian Murphy e Liam Neeson.) Tornando ainda mais clara a perturbação mental do protagonista, TDKR fecha com grande competência a trilogia de Nolan, empregando uma trama mais simplificada que a do filme anterior, mas não menos eficaz – além, claro, de conseguir a proeza de estabelecer Bane como uma ameaça de peso mesmo depois do Coringa. No entanto, peca na problemática noção de tempo a partir do segundo ato (o que gera várias elipses inexplicáveis e absurdas), em alguns diálogos ruins e, é claro, na patética condução da morte de certo personagem. 4/5

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