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U2 3D (2007)

Sou fã do U2. A partir daí, qualquer coisa que eu possa escrever sobre U2 3D torna-se extremamente previsível, já que esse tipo de projeto depende quase que totalmente da simpatia que o espectador sente pelos artistas na tela (não consigo me ver gostando de Justin Bieber: Never Say Never, por exemplo)*. Montado a partir de shows realizados na América do Sul durante a Vertigo Tour em 2006, U2 3D diferencia-se do outro projeto da banda voltado para o cinema (o ótimo Rattle and Hum, de 1988) por não trazer qualquer intervalo entre as apresentações, como entrevistas ou trechos documentais. Seu único objetivo é mergulhar o espectador no clima mais próximo possível de um show de rock; é ser um filme-concerto por completo. O resultado, obviamente, não é better than the real thing, mas chega bem perto – ao menos para mim, que ainda não teve o privilégio de ver Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. tocando ao vivo e a cores.

Dirigido por Catherine Owens (antiga colaboradora do U2) e Mark Pellington, U2 3D já inicia de maneira impactante ao mostrar os espectadores passando apressados pelas catracas a fim de entrar no estádio – um acerto que o filme mantém até o fim, já que são vários os planos dedicados exclusivamente às reações da multidão – o que, claro, confere ainda mais energia ao projeto (diferente do que acontece em Rolling Stones: Shine a Light, de Martin Scorsese e no próprio Rattle and Hum, que dão pouco destaque à plateia). Além disso, várias vezes esses planos resultam em imagens de tirar o fôlego, como o estádio iluminado apenas por telas de celulares e, é claro, o plongé em que o público pula enlouquecido no riff de abertura de “Where the Streets Have No Name”. Somando isto a outras cenas de incrível beleza plástica (como a que traz Bono envolto em fumaça sob um pequeno facho de luz durante “Miss Sarajevo” e outra que revela a dimensão colossal do palco em “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”), fica a conclusão de que o filme é absolutamente incapaz de causar o mesmo efeito no homevideo – seja ele 3D ou não.

Porém, é preciso dizer que a dupla de diretores se equivoca aqui e ali ao incluir detalhes visuais que entram em choque com o propósito e a lógica do filme, como os “desenhos” em “Love and Peace or Else”, que apenas repetem o que está sendo cantado; e os letreiros que cruzam a tela em “The Fly” – uma referência ao vídeo da fenomenal ZooTV Tour, mas que, nostalgia à parte, só cria uma poluição visual. Por outro lado, Owens e Pellington acertam ao não tratar o 3D como um brinquedo (ao menos, na maior parte do tempo), sendo surpreendentemente econômicos e reservando o uso mais evidente do recurso para os momentos de maior impacto. Neste sentido, é impossível não mencionar o trecho em que Bono encara a câmera durante “Sunday Bloody Sunday” e estende a mão: o impulso é estender também para tocá-la, tamanha a intimidade gerada pela cena (e que, por si só, resume o sucesso do filme). É surpreendente que tal intimidade seja atingida, já que os músicos são frequentemente fotografados em ângulos baixos, o que ressalta seus status de “lendas” (ainda que, claro, não sejam tão míticos quanto um Mick Jagger ou um Robert Plant). Para os familiares à história do U2, o filme ainda traz um quadro extremamente tocante ao final de “Sometimes You Can’t Make It On Your Own”, enfocando Bono em um abraço solitário que é sobreposto à imagem de seu “pai” no telão (para quem ele escreveu a música).

Mas é claro que, sendo um filme-concerto, a alma de U2 3D está na performance dos músicos – e nesse sentido, é quase irretocável. O setlist poderia ser um pouco mais ousado e trazer músicas menos conhecidas (como no já citado Shine a Light), mas está a anos-luz de decepcionar. Isso, aliás,  seria impossível para uma banda que tem Bono como frontman, já que ele mostra no palco uma vivacidade que não faz feio ao lado de líderes como Mick Jagger ou Freddie Mercury – ainda que sua voz já não seja a mesma de antes (basta comparar a versão de “Bullet the Blue Sky” vista aqui com a de Rattle and Hum para perceber as consequências do tempo). Já Edge, Adam e Larry estão mais concentrados na perfeição de seus desempenhos e ganham menos espaço, mas ainda assim são carismáticos – ou talvez seja meu lado fãzóide, não sei.

Lado fãzóide que explica as sensações únicas de emoção em “Miss Sarajevo” (uma das minhas músicas favoritas) e de euforia na abertura de “Where the Streets Have No Name”, passando pelo fato de curtir os “momentos-ativismo” do show mesmo que perceba ali um quê de ingenuidade, a complexa abordagem da fé que me levou a adorar esse quarteto irlandês e tantas outras coisas. Lado que este texto explicita. Afinal, U2 é U2.

* Sinto muito por isso: U2 e a criatura não merecem estar juntos no mesmo parágrafo.

PS: Hoje o blog comemora 1 ano de existência! – meio trôpega, é verdade, mas a gente faz o que pode.
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U2 3D
(Idem, EUA, 2007.)

Direção: Catherine Owens e Mark Pellington.

Com: Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton.

11 de Setembro

Parte por causa da data (11 de setembro é aniversário do golpe que depôs Salvador Allende em 1973, trazendo uma das mais violentas ditaduras do século XX), parte por causa do post anterior, me senti compelido a colocar aqui duas músicas que julguei apropriado compartilhar com os que não conhecem.

“Angélica”, de Chico Buarque: foi escrita em homenagem à estilista Zuzu Angel, que teve o filho Stuart assassinado pela ditadura brasileira e cujo corpo jamais foi encontrado. A própria Zuzu foi morta anos depois. A história, inclusive, rendeu um filme em 2006 (que eu ainda não vi), estrelado por Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira.

“Mothers of the Disappeared”, do U2: Bono escreveu inspirado por um grupo de mulheres de El Salvador, mas a história se aplica a todo o continente. A performance da banda em Santiago em 1998, com as mães, irmãs, avós e esposas no palco, é dolorosa e sublime.

Ah, e para não ignorar o 11 de Setembro dos Estados Unidos (que, queiram ou não, foi uma tragédia inominável em que inúmeros inocentes perderam a vida), sugiro o excelente Vôo United 93, lançado em 2006 e dirigido por Paul Greengrass.

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