O Exterminador do Futuro: Gênesis (2015)

O Exterminador do Futuro: Gênesis (Terminator: Genisys, EUA, 2015)

Direção: Alan Taylor

Roteiro: Laeta Kalogridis e Patrick Lussier

Com: Arnold Schwarzenegger, Emilia Clarke, Jai Courtney, Jason Clarke, J.K. Simmons, Byung-hun Lee, Matt Smith, Dayo Okeniyi, Courtney B. Vance, Michael Gladis, Sandrine Holt e Wayne Bastrup.

As continuações não foram generosas com a franquia O Exterminador do Futuro após a saída de James Cameron, responsável pelas seminais partes 1 e 2 (e que, convenhamos, se resolvem perfeitamente). Dirigida por Jonathan Mostow, a parte 3 tinha alguns bons conceitos, mas no geral arruinava o esforço das ações anteriores de Sarah Connor, John e o T-800 em prol de uma trama pouco surpreendente. Já a parte 4, comandada pelo medíocre McG, era um caça-níqueis inofensivo e pouco memorável, além de ter uma história que não desenvolvia em nada a trama dos anteriores. Por sua vez, este novo Gênesis se apresenta como o mais decente da série desde O Julgamento Final, mesmo que não chegue aos pés deste: se por um lado apresenta o mesmo problema que comprometeu o terceiro filme, ao menos consegue avançar a série num caminho mais promissor. Pena que as boas ideias estejam sob o comando de uma direção tão burocrática.

Escrito por Laeta Kalogridis (Ilha do Medo) e Patrick Lussier (Fúria Sobre Rodas), Gênesis ignora deliberadamente as partes 3 e 4: John Connor não é morto pelo Exterminador visto em A Rebelião das Máquinas, e ele e Kyle Reese já se conhecem há um bom tempo, diferente do que foi visto em A Salvação. Ainda assim, de alguma forma o Julgamento Final aconteceu e as máquinas exterminaram a maior parte da humanidade. Chegando à máquina do tempo logo após a Skynet enviar o T-800 do filme original para matar Sarah Connor (Clarke), John (Clarke) espera até que Kyle Reese (Courtney) se voluntarie para salvá-la, já que depende disso para assegurar a própria existência. Ao chegar em 1984, no entanto, Kyle é surpreendido por uma Sarah treinada em combate por um Exterminador (Schwarzenegger) que a protege desde criança contra os ataques de um mortífero T-1000 de metal líquido (Lee). Percebendo que, durante sua viagem, encontrou memórias de um passado que não viveu, Kyle informa Sarah que o ataque da Skynet não se dará mais em 1997 (data original), mas em 2017, com a ativação do mega-SO Gênesis. Assim, Sarah e Kyle viajam para impedir que isso aconteça, mas encontram um inimigo inesperado – a menos que você não tenha assistido ao trailer ou visto qualquer cartaz, é claro.

O que, é preciso dizer, marca uma das mais burras campanhas de marketing dos últimos anos, já que a reviravolta principal tinha um potencial para subverter expectativas quase tão grande quando a promoção de Schwarzenegger de vilão a herói entre o primeiro e o segundo filme (algo que os trailers de O Julgamento Final também estragavam, vale dizer). E mesmo que Gênesis complique ainda mais a já complexa cronologia da série, os novos elementos introduzidos são bem mais interessantes do que aqueles vistos depois do segundo filme. Seguindo uma lógica parecida com a empregada em Star Trek e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Gênesis cria uma paradoxal sobreposição de linhas do tempo que proporciona um futuro novo e imprevisível para a franquia, recriando incidentes dos primeiros filmes (a chegada do T-800 programado para matar Sarah, a perseguição de Kyle numa loja de roupas) ao mesmo tempo em que os subverte. É verdade que em alguns momentos isso se torna difícil de acompanhar e que nem todas as perguntas são respondidas (quem, afinal, enviou o T-800 que protege Sarah? E como ele sabia onde o T-800 original apareceria? Por que a ativação da Skynet foi adiada em 20 anos?), mas o importante é que essa confusão temporal acontece em função do conhecimento da Skynet de seu repetido fracasso em matar John Connor, algo que parece impossível mesmo com a quantidade de Exterminadores enviados para a tarefa, o que os leva a mudar para uma estratégia mais perversa.

Se os aspectos de trama de Gênesis funcionam razoavelmente bem, o mesmo não pode ser dito do desenvolvimento dramático do filme, que é estéril: mesmo que Sarah tenha criado um forte apego ao T-800, vendo-o como uma figura paterna de forma parecida com que John viu o T-800 de O Julgamento Final, não vemos aquela dinâmica memorável – embora os diálogos entre Sarah, Kyle e o Exterminador tragam algo que fez muita falta em A Salvação: senso de humor. Outro problema é que há uma frieza latente na relação entre Sarah e Kyle que impede que o espectador se envolva no romance que ambos devem viver (algo que pode ser percebido quando Kyle é informado que deverá ser o pai de John). Além disso, os diálogos são bastante limitados, oscilando entre o meloso (a conversa inicial entre John e Kyle) e obviedades (o “Eu não preciso ser salva!” dito por Sarah chega a doer os ouvidos), apenas incluindo os característicos “Venha comigo se quiser viver” e “I’ll be back” para agradar aos fãs (além, claro, de um irônico comentário sobre a hiperconectividade apenas facilitar o massacre da Skynet).

Responsável por alguns episódios da série Game of Thrones e pelo fraquíssimo Thor: O Mundo Sombrio, Alan Taylor conduz a ação de Gênesis de forma absolutamente burocrática: chega a ser covardia comparar a nova invasão ao prédio da Cyberdyne àquela vista no segundo filme, posto que jamais chega a causar uma tensão semelhante. Além disso, a ação também é prejudicada pela assepsia visual do filme, bem distante da violência vivida por Kyle e Sarah no original (até mesmo uma luta entre dois Schwarzeneggers pouco impressiona!). E se Emilia Clarke (também conhecida por Game of Thrones) e Jai Courtney vivem seus icônicos personagens de forma apenas correta, Arnold Schwarzenegger não consegue recriar o mesmo impacto visto em suas duas primeiras aparições, mas continua a ter uma presença em cena eficaz em sua obstinada inexpressividade e comentários inapropriados. Por sua vez, Jason Clarke aproveita bem a chance apresentada pelo novo John Connor e assume a função de forma convincente. E se J.K. Simmons é desperdiçado com um personagem irrelevante (ainda que divertido) e Byung-hun Lee falha em recriar a presença assustadora de Robert Patrick como o T-1000, é lamentável ver Matt “11º Doutor” Smith relegado a um papel tão minúsculo quando mostra, em seus poucos minutos em cena, potencial para ser um vilão realmente temível.

Indo na direção contrária das partes 3 e 4 (quando a parte “ação” era claramente melhor que a “ficção científica”), Gênesis é um filme eficaz e com ocasionais momentos de tensão, mas continua bem abaixo do que foi estabelecido nos dois já clássicos de James Cameron. Aponta uma nova direção para a franquia que não é absolutamente descartável, mas bem que poderia encontrar nomes mais talentosos para desenvolvê-la. Por que Cameron não desiste de continuações de Avatar para assumir a tarefa?

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Divertida Mente (2015)

Divertida Mente (Inside Out, EUA, 2015)

Direção: Pete Docter e Ronaldo Del Carmen

Roteiro: Pete Docter, Meg LaFauve e Josh Cooley

Vozes de: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Paula Poundstone, Bobby Moynihan, Paula Pell, Dave Goelz, Frank Oz, Flea, Rashida Jones e John Ratzenberger.

Divertida Mente é provavelmente a melhor animação lançada por um grande estúdio nos últimos cinco anos. Aliás, a Pixar devia um grande filme desde 2010, quando lançou o comovente Toy Story 3, mas nos anos seguintes deu uma série de escorregões criativos com o apenas correto Valente e os fracassados Carros 2 e Universidade Monstros. Aqui, o estúdio volta às boas graças dos magníficos WALL-E, Ratatouille e Os Incríveis, entregando uma história simples, mas ancorada em um conceito tão fascinante que confere contornos épicos à mente de uma criança – e não é nada difícil imaginar crossovers desse conceito com personagens em desenvolvimento (como Boyhood) ou mentalmente perturbados.

Escrito por Pete Docter (Monstros S.A., Up) ao lado dos estreantes Meg LaFauve e Josh Cooley, Divertida Mente apresenta a mente humana como um típico centro de operações coordenado pelas emoções. Ao nascer, a pequena Riley surge com a Alegria e a Tristeza – e, à medida que cresce, surgem a Raiva, o Medo e a Repulsa. Até os 11 anos, a mente de Riley é claramente liderada pela Alegria. Isto é, até que, aos 11 anos, Riley se muda com seus pais para São Francisco, levando-a a uma forte confusão emocional que pode atrapalhar sua capacidade de julgamento.

Expandindo ainda mais o talento para visuais imaginativos visto em Monstros S.A., Docter centra boa parte de sua história no centro de operações emocionais, mas seu retrato da mente humana é bem mais extenso – e é uma grande sacada que o aspecto daquele “lugar” vá se alterando à medida que Riley cresce. Ao nascer, o centro conta apenas com um botão, dedicado a gerar reações básicas (choro ou riso) dependendo de quem o aciona (a Tristeza ou a Alegria). Com a chegada de novas emoções, o lugar vai se expandindo, e cada uma delas modela as “memórias-base” que formam a personalidade de Riley (ligadas nessa idade, claro, à família, amigos, brincadeiras e algum interesse mais forte – no caso de Riley, o hóquei). Assim, é interessante ver um processo de confusão emocional surgir com a mudança, especialmente quando os percalços no caminho da menina são representados pela Tristeza “contaminando” memórias alegres – uma ressignificação que acontece com todos quando sofremos alguma ruptura (término de um relacionamento, brigas, mudanças, falecimentos, etc.). Também é fascinante perceber o crescimento de Riley quando no final, suas memórias já começam a se tornar mais complexas, não se definindo por um único sentimento.

Mas não é só: a confusão de Riley é representada por um acidente que retira a Alegria e a Tristeza do centro de operações, deixando apenas as outras três emoções no comando enquanto as principais se perdem no labirinto da mente, passando por regiões como a imaginação (que, não por acaso, tem sua riqueza gerada principalmente na infância), o depósito das memórias de longo prazo (salve, músicas irritantes que teimam em ser lembradas do nada!) e a “linha do pensamento” – um trem que, como quase todo o resto, para quando Riley dorme, revertendo a energia para a produção de sonhos. Sonhos que, aqui, são inspirados num estúdio cinematográfico que exige produções em série (e é divertido ver os responsáveis reclamando de sonhos clichês, como o “estar caindo” ou o “nu em público”). Além disso, conceitos como o subconsciente (representado como uma “masmorra da mente”) e o vale do esquecimento podem até ser apresentados rapidamente, mas funcionam em seu pouco tempo de tela.

Além disso, também é bacana termos visões do centro de operações de outras pessoas, especialmente dos pais de Riley – onde as emoções trabalham de forma ordenada, refletindo a postura mais equilibrada dos adultos (além, claro, da diferença de percepção entre homens e mulheres). Além disso, ao codificar as memórias por cores dependendo de quem as influenciou, Docter e Del Carmen criam um filme com um visual vibrante cuja paleta varia entre tons de amarelo, azul, roxo, vermelho e verde – e é uma pista econômica e elegante para a resolução que os cabelos da Alegria sejam azuis, contrastando com seu amarelo vivo. Resolução esta que, diga-se de passagem, mostra coragem em defender que emoções negativas e desconfortáveis são parte intrínseca da existência. Em outros tempos, talvez isso soasse anódino, mas não quando a regra geral parece ser colocar a si e aos outros em bolhas emocionais livres de problemas.

Tocante e engraçado, Divertida Mente é desde já, um novo clássico do estúdio de John Lasseter. E, assim como Os Incríveis, um filme do qual saímos da sala de projeção imaginando uma possível sequência. Afinal, o quão maluca seria uma continuação situada na adolescência?

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Community – 6ª temporada (2015)

Community – 6ª temporada (EUA, Yahoo, 2015)

Showrunner: Dan Harmon

Com: Joel McHale, Gillian Jacobs, Danny Pudi, Alison Brie, Jim Rash, Ken Jeong, Paget Brewster, Keith David, Richard Erdman, Erik Charles Nielsen, Danielle Kaplowitz, Dino Stamatopoulos, Charley Koontz, Luke Youngblood, Craig Cackowski, David Neher, Martin Mull, Lesley Ann Warren, Irene Choi, Brian Van Holt, Billy Zane, Travis Shuldt, Kumail Nanjiani, Jason Mantzoukas, Jay Chandrasekhar, Steve Weber, Mitchell Hurwitz, Steve Guttenberg, Nathan Fillion, Matt Berry, Seth Green e Yvette Nicole Brown.

Se há um fandom televisivo que sabe o que é sofrer por seu programa favorito, é o de Community. Lançada em 2009 como uma das estreias mais promissoras da NBC, a série foi gradualmente se tornando mais e mais insana, mas seu humor menos convencional atraiu uma audiência modesta, ameaçando-a de cancelamento a partir do fim da 2ª temporada. Após o 3º ano, o showrunner Dan Harmon foi demitido por conflitos com o canal, resultando numa 4ª temporada que, buscando ser mais “acessível”, acabou muito inferior às anteriores. Na tentativa de salvar a série, Harmon foi readmitido para o 5º ano, reerguendo a qualidade da atração, mas não o público, provocando o cancelamento. Com o contrato dos atores prestes a expirar, o Yahoo assumiu as rédeas para a tão almejada 6ª temporada aos 45 do segundo tempo. Uma trajetória que, por si só, já renderia outra série…

Assim, é um verdadeiro milagre que Community ainda mantenha seu frescor após tantos percalços e a perda de uma fração significativa de seu elenco principal (Chevy Chase, Donald Glover e Yvette Nicole Brown foram saindo ao longo dos últimos três anos). Neste retorno, Harmon volta a entregar doses fartas do humor nonsense e banhado em metalinguagem que é marca registrada da série e, ainda assim, consegue soar sempre natural dentro do cenário de perpétuo caos que é a Faculdade Comunitária Greendale. Reunindo-se aos veteranos Jeff Winger (McHale), Britta Perry (Jacobs), Annie Edison (Brie), Abed Nadir (Pudi), Ben Chang (Jeong) e o reitor Craig Pelton (Rash), temos personagens carismáticos que não se limitam a reciclar traços dos que partiram: o programador de computadores Elroy Patashnik (David), que se encontra um tanto desatualizado; e a administradora Frankie Dart (Brewster), que se junta ao comitê Salve Greendale para reequilibrar as eternamente combalidas finanças da instituição.

Não apenas os dois novatos se integram rapidamente ao que sobrou do antigo grupo de estudos como Frankie, em particular, se revela um golpe de mestre cômico: sendo uma outsider de Greendale pomposa e metódica (tudo o que a faculdade não é), ela é obrigada a se impor como voz da razão em meio às maluquices que imperam naquele meio “acadêmico” – e a seriedade inabalável de Paget Brewster é fundamental para tornar Frankie ainda mais engraçada, já que é a única a reagir com a perplexidade esperada a um reitor profundamente influenciável por propaganda ou bizarrices como um datadíssimo simulador de realidade virtual e uma mão gigante (!). Mas uma das grandes surpresas dessa temporada é a performance mais contida (e eficaz) de Ken Jeong, que pela primeira vez está mais integrado ao grupo – e a queixa de Chang por “não estar sendo bem utilizado” é uma piada divertida com todas as mudanças absurdas já feitas com o personagem desde o início da série. Já Annie e Abed surgem um tanto mais apagados (ele, em grande parte por ter perdido Troy para as escaladas cômicas/metalinguísticas que renderam tantos momentos incríveis), embora tenham sua cota de bons momentos (a dureza com que Annie intimida Britta é hilária).

Trazendo de volta velhos coadjuvantes e suas esquisitices (Garrett, Vicki, Neil Gordo, Leonard, Annie Kim, Todd, Oficial Cackowski), esta nova temporada também dedica um tempo maior a Britta e suas idiossincrasias: finalmente conhecemos seus adoráveis pais (a quem ela detesta), compreendemos parte das razões de seu comportamento (cuja revolta tem um quê francamente adolescente) e mais uma vez a vemos dividida entre amor e seu conceito de integridade. Aliás, é curioso que seja justamente Britta o catalisador do episódio mais político de toda a série, Basic Email Security. Não pelas razões esperadas: afinal, é a eterna campeã dos oprimidos que convence o grupo a bancar a apresentação de um comediante ofensivo após receberem ameaças de retaliação. Claro que o humor não parte daí, mas sim do vazamento dos emails, que expõe com maestria as falhas e inseguranças do grupo numa sequência engraçadíssima: Britta sabe de cor o dia em que foi elogiada; Jeff escreve para astronautas, numa demonstração de infantilidade de quem cresceu sem uma figura paterna; o dramático “Ela está morta!” dito por Frankie. Community jamais se furtou da tiração de sarro a excessos politicamente corretos (a criação do mascote na 1ª temporada é um ótimo exemplo), mas aqui a provocação ao perigoso ambiente de pânico moral e francamente censor que tem se formado em diversas universidades americanas é mais do que certeira – e sempre arranca risadas.

Outra coisa tipicamente communityana que está de volta são os episódios-homenagem que empregam características de filmes de gênero não para parodiá-los, mas para construir sua própria trama de forma engraçada (e no processo, levando toda Greendale à demência coletiva). Dois em particular se destacam: Grifting 101, que emprega a narrativa frequentemente mirabolante das histórias de “golpe perfeito” a partir da chegada de um especialista no assunto vivido por Matt Berry (The IT Crowd); e, claro, Modern Espionage, que traz de volta o paintball que gerou alguns dos momentos mais memoráveis da série. Desta vez são empregados elementos típicos de filmes de espião: investigação e busca por fornecedores, emails criptografados, ações sob disfarce durante uma festa, comunicadores de orelha, codinomes (todos relacionados a intérpretes do Batman – e é notável a piada interna ao designar Britta como “Clooney”) e motivações (propositalmente) ridículas para os vilões. Merecem lembrança também as piadas finais que por vezes não tem relação alguma com o restante da trama, mas levam o nonsense à estratosfera, como a que envolve o potencial comprador da mão gigante, a que revela como Shirley (Brown) está após deixar Greendale e, claro, o sensacional trailer do derivativo português classe Z de Gremlins.

Voltando a incluir o caminhão de tiradas brilhantes já esperado (“Montagens são filmes se desculpando pela realidade”, “E Jesus chorou!”, “É o paradoxo Brenda!”, “Esperança é a irmã rica e vaca da fé”, os insultos whiplashianos do professor de teatro, “Preferimos ser chamados de pessoas sem cor ou vaginas”, entre várias outras), a série também não perdeu a mão ao usar recursos visuais para fazer graça. Seja com a direção de arte (a sala de crises no 3º episódio – o 100º da série –, dedicada à emergência sobre a possível carreira acadêmica de um cão, o bar burlesco clandestino, o retrato de Jeff na mesa-de-cabeceira do reitor, o suplemento muscular atrás da mesa de Jeff), seja com a montagem e a misé en scène (os vibrantes tiroteios de paintball, a insólita luta entre dois tablets, a dramaticidade do “assassinato” cometido por Jeff), Community é exemplar ao jamais centralizar seu humor no texto, sendo possível encontrar piadas novas em vários episódios ao revê-los. Além disso, é curioso que sua herança televisiva continue forte na Internet, sendo possível notar os momentos precisos em que seriam inseridos intervalos comerciais – talvez uma forma de evitar que o espectador estranhe o formato que a série assumiu até aqui.

Embora outra característica marcante da série seja não ter piedade alguma em jogar no ventilador os traços menos atraentes do caráter de seus personagens, a 6ª temporada exibe sensibilidade no desenvolvimento que dá aos arcos de alguns personagens – especialmente Jeff, que, se no ano anterior já desenvolvia uma neura com a própria idade, aqui isso se soma ao temor de ser deixado para trás. Isso resulta num season finale que, ao mesmo tempo em que explode as taxas de metalinguagem ao trazer todos imaginando a “7ª temporada” (a versão de Britta é absurdamente genial), revela-se tocante ao fazê-lo abrir o coração para os amigos, além de trazê-lo numa conversa mais intimista com Annie que finalmente revela os motivos da atração semi-platônica que sempre tiveram um pelo outro. Ao mesmo tempo, é a própria série dizendo que não é o fim do mundo caso não retorne.

Ainda não é certo se esta foi a temporada final, mas se for, Community fecha um ciclo imperfeito, mas com uma criatividade rara no gênero sitcom. Se chegamos a #SixSeasons, só podemos mesmo torcer para que #AndAMovie torne-se a despedida que a turma de Greendale merece.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Fantaspoa 2015

fantaspoa 2015Links para os textos mais curtos que escrevi sobre filmes exibidos no Fantaspoa (Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre) em 2015:

Deserto Azul (Brasil/Chile, 2015) – 1/5

New Kids Turbo (Holanda, 2010) – 4/5

New Kids Nitro (Holanda, 2011) – 3/5

Os Últimos Sobreviventes (EUA, 2014) – 3/5

The Dead Lands (Nova Zelândia, 2014) – 3/5

Outros filmes assistidos do festival:

Bros Before Hos (Holanda, 2013) – Assim como nos dois New Kids, a dupla Haars-van der Kuil não se acanha no humor politicamente incorreto, mas desta vez seguindo uma abordagem mais convencional. O resultado é uma comédia romântica grosseira mas cativante, que reconhece as falhas de seus protagonistas. 4/5

Depois da Vida (Hungria, 2014) – Segue um tom agradavelmente melancólico e a subtrama sobrenatural caminha num tom doce e divertido. Pena que o filme não saiba muito bem para onde conduzi-la. 3/5

Kanyamakan (Marrocos, 2014) – Seu tom de aventura é bastante eficaz, mas poderia estar a serviço de um filme bem melhor. Ao menos um que não incluísse efeitos videoclipeiros, efeitos sonoros “cômicos” e atuações canastronas. 3/5

Liza, a Fada-Raposa (Hungria, 2015) – Busca um tom nonsense para o drama vivido pela protagonista (um grande desempenho de Mónika Balsai) – e embora por vezes extrapole nos absurdos, certamente é eficaz. 3/5

Lobocop (Canadá, 2014) – Começa divertido, embora perca fôlego no terço final mesmo com sua curta duração. Ainda assim, conta com gore, efeitos práticos e bizarrices suficientes para agradar os fãs de lobisomens. 3/5

Nascido para Morrer (Argentina, 2014) – Parece esquecer que, numa comédia, quem deve achar as coisas engraçadas é o público, não os personagens. Somando isso a uma paródia sem graça dos filmes de espionagem, a receita do desastre é completa. 1/5

Night of the Living Deb (EUA, 2015) – Uma comédia romântica encontra George A. Romero. Nem perto de ter a classe de Todo Mundo Quase Morto, mas relativamente bem-sucedido no que se propõe. 3/5

Ninja Torakage (Japão, 2014) – Tenta ser ao mesmo tempo um épico conto do Japão medieval e uma comédia que flerta com o pastelão. Uma mistura indigesta que desaponta ainda mais pelos momentos em que revela um potencial desperdiçado. 2/5

O Que Fazemos nas Sombras (Nova Zelândia/EUA, 2014) – O formato mockumentary empregado para uma narrativa ao estilo Keeping Up with the Kardashians, trocando socialites por vampiros (bem que isso poderia substituir o programa original…). Ótimos diálogos e composições inspiradas complementam as ótimas sacadas da direção. 4/5

Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (EUA, 1984) – O clássico de Stuart Gordon continua brilhante ao conseguir equilibrar o riso e o arrepio neste derivativo oitentista de Frankenstein, que também oferece um prato cheio em gore e efeitos práticos. 5/5

Santiago Violenta (Chile, 2014) – Acertando em doses de uma orgânica metalinguagem, diverte com sua homenagem aos policiais dos anos 70 ao mesmo tempo em que cria suas próprias sequências memoráveis, funcionando muito bem mesmo com o estranho desfecho. 4/5

Stung (EUA/Alemanha, 2015) – Não apenas um filme que é bem-sucedido em usar abelhas gigantes como ameaça, também encontra uma dupla central cativante e carismática, uma performance bizarra de Clifton Collins Jr. e muito gore. Diversão garantida. 4/5

Crimes Ocultos (2015)

Crimes Ocultos (Child 44, Reino Unido / República Tcheca / Romênia / EUA, 2015)

Direção: Daniel Espinosa

Roteiro: Richard Price, baseado em livro de Tom Rob Smith

Com: Tom Hardy, Noomi Rapace, Gary Oldman, Joel Kinnaman, Paddy Considine, Vincent Cassel, Fares Fares, Agnieszka Grochowska, Josef Altin, Charles Dance e Jason Clarke.

Um problema por vezes notado em filmes de serial killers é a excessiva atenção dedicada ao mistério, que compromete o filme em duas frentes: 1) por vezes acaba expondo os furos mais grosseiros da trama e 2) converte os heróis em figuras pouco interessantes. Crimes Ocultos sofre do exato oposto: mesmo que conte com uma boa história e um mistério com todos os elementos para intrigar, falha em conseguir esse efeito justamente por focar-se tanto no núcleo de protagonistas e em uma quantidade enorme de subtramas.

Contando com uma introdução excessivamente longa, Crimes Ocultos foca-se em Leo Demidov (Hardy), apresentado como o soldado que hasteou a bandeira soviética sobre o Reichstag durante a invasão de Berlim, na Segunda Guerra Mundial (algo que não desempenha função alguma na história). Oito anos depois, já no final do período stalinista, Leo é perturbado pela informação – vinda do suposto traidor Anatoly Brodsky (Clarke) – de que sua esposa Raisa talvez seja uma espiã infiltrada, o que coloca o casal em desgraça graças a Vasili (Kinnaman), rival do protagonista. Enviado a uma comunidade afastada, Leo percebe similaridades na morte de algumas crianças do local com outras que viu em Moscou, mas para levar adiante uma investigação, precisa vencer a má vontade de Nesterov (Oldman), seu novo supervisor.

Soando bem mais longo do que parece em seus 137 minutos, Crimes Ocultos se sai bastante bem ao recriar o clima denuncista da ditadura stalinista, deixando claro que laços de parentesco ou de afeto podem representar um problema grave numa sociedade que acredita que o inimigo pode morar ao lado – e a cena em que Leo é confrontado pelo pragmatismo de Raisa nesse sentido talvez seja o mais doloroso da projeção. O problema é que, embora importante, esse background histórico se estende mais do que deveria: antes de chegarmos ao seu principal núcleo narrativo – a busca pelo assassino -, passamos pela trajetória de Leo na infância e na guerra, seu trabalho como investigador do Estado soviético, a vilania de Vasili, o processo de Anatoly, a acusação de Raisa e o exílio do casal. Além disso, o longa ensaia a construção de um mistério sobre a identidade do assassino apenas para entregá-lo de forma súbita e anti-climática no meio do segundo ato, quando a investigação está apenas começando a se desenvolver (e ainda se dispersa em outra subtrama irrelevante para a trama envolvendo a perseguição do estado soviético a homossexuais).

Afinal, era mesmo necessário gastar tanto tempo com a questão de Anatoly, que conduziu à Raisa? É algo que poderia facilmente ser resumido e colocado a trama em movimento mais rapidamente, mas é exatamente o que o diretor Daniel Espinosa não parece interessado em fazer. É admirável, sim, que ele se preocupe com a criação de uma atmosfera opressiva e sem esperança (e, de fato, o sucesso parece impossível para Leo e Raisa, algo importante para gerar envolvimento no terço final), mas exagerar nisso em detrimento do resto apenas emperra a narrativa, dando a impressão de que Crimes Ocultos é mais longo e frágil do que é na realidade. Arrisco dizer que essa dispersão do filme tem jeito de ser excesso de devoção ao livro que o originou (e que não li). Além disso, o diretor tem dificuldade na condução de sequências de ação mais básicas – notadamente o tiroteio em Berlim nos minutos iniciais e a luta de Leo e Raisa contra agentes enviados para matá-los no início do terceiro ato, casos em que a misé en scène falha em estabelecer com clareza a geografia das cenas ou quem está enfrentando quem.

Presente em quase todas as cenas, Tom Hardy segura Crimes Ocultos com facilidade, emprestando a Leo uma intensidade que nem sempre é visível graças à introspecção do sujeito, mas que revela um homem determinado a fazer o certo: repare como, perturbado após testemunhar uma execução sumária, ele se esforça para manter a sobriedade do comando, mas não consegue conter completamente o choro ao lidar com as filhas do casal morto. Por sua vez, Noomi Rapace já planta a pista do pragmatismo de Raisa desde suas primeiras cenas, e sua mudança de postura na segunda metade da projeção é conduzida com competência pela atriz, ao passo que Paddy Considine dá a seu personagem uma dimensão trágica, mas sem que isso deixe de despertar repulsa por suas ações. E se Gary Oldman e Jason Clarke pouco tem a fazer, surgindo como coadjuvantes de luxo, Joel Kinnaman se entrega ao exagero para conferir vilania aos menores atos de Vasili, soando como uma caricatura de psicopata que mais irrita do que propriamente assusta. Finalmente, é difícil não questionar a orientação de todas as atuações, que insistem em expressar-se num inglês com desnecessário sotaque russo que, visando tornar o filme mais “autêntico”, só consegue distrair.

Eficiente em ressaltar o perigo de uma sociedade em que o menor deslize (ou mesmo a ausência deste) pode provocar represálias desproporcionais sem qualquer evidência, Crimes Ocultos não é um filme ruim, mas gasta tempo demais para definir o que quer ser. Ao menos tem acertos suficientes para não ser uma oportunidade completamente desperdiçada.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

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