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Quarteto Fantástico (2015)

Quarteto Fantástico (Fantastic Four, EUA, 2015)

Direção: Josh Trank

Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank, baseado nos personagens de Stan Lee e Jack Kirby.

Com: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Dan Castellanetta, Owen Judge, Evan Hannemann.

Deve haver alguma maldição sobre o Quarteto Fantástico no Cinema. Enquanto figuras improváveis como Homem de Ferro, Homem-Formiga e os Guardiões da Galáxia ganharam versões bem-sucedidas nas telonas (e aventuras com os ainda mais obscuros Doutor Estranho, Capitã Marvel e os Inumanos estão a caminho), a família superpoderosa que é um dos marcos iniciais do Universo Marvel nos quadrinhos ainda não conseguiu ganhar um longa decente – e não é por falta de tentativas. Ficar apenas levemente acima da tosqueira trash (nunca lançada oficialmente) produzida por Roger Corman em 1994 e dos dois terríveis longas dirigidos por Tim Story (quem?) em 2005 e 2007 não é algo para se orgulhar.

E é uma pena, porque, mesmo tendo sua cota de problemas, a primeira metade dessa versão é até moderadamente promissora. Apresentando-nos a um Reed Richards (Teller) ainda menino, sua genialidade logo é estabelecida ao construir uma máquina de teletransporte na garagem. Encarado com escárnio por seu professor de ciências (o pior da história da Humanidade), o experimento de Reed chama a atenção do cientista Franklin Storm (Cathey), que o recruta para desenvolver um projeto similar iniciado pelo brilhante, mas arrogante, Victor von Doom (Kebbell). Contando com a ajuda dos filhos de Storm, Sue (Mara) e Johnny (Jordan), Reed finaliza o projeto e convoca seu melhor amigo Ben Grimm (Bell) para os testes. Transportados para uma dimensão paralela à Terra, o grupo sofre modificações genéticas e Victor acaba ficando para trás, levando Reed a um esforço desesperado para reverter os efeitos da viagem.

Gastando um tempo enorme para concluir o projeto na Fundação Baxter, ainda assim a primeira metade é razoavelmente eficaz em despertar interesse pela premissa levantada, estabelecendo o progresso de Reed e Victor de maneira convincente (e que dá uma justificativa bem menos datada para o incidente do que a vista em 2005). Além disso, a sequência que se passa na dimensão paralela é conduzida com uma correta urgência, embora o desfecho provoque um estranhamento inevitável quanto aos efeitos experimentados por Sue. Fica claro que a abordagem buscada por Josh Trank (Poder Sem Limites) segue mais para a linha da fantasia de ficção científica ao invés de uma aventura tradicional de super-herói, algo que pode ser notado pela paleta de cores que tende ao cinza, diametralmente oposta ao que vem sido feito pela Marvel Studios (mas não chega ao tom solene empregado pela DC). Porém, isso impõe um certo tédio visual ao filme, mesmo que haja alguns acertos do design de produção (como ao trazer a máquina no edifício Baxter como uma versão 200.0 da criada por Reed com sucata).

No entanto, nada redime o filme de sua principal falha: se o Quarteto se destacou nos quadrinhos por ser não apenas uma equipe, mas uma família de heróis, tal dinâmica é quase inexistente neste filme. Beira o oposto, na verdade: Sue e Johnny se tratam sempre de forma fria e distante, a aproximação romântica entre Sue e Reed mal é sugerida, e as trocas de farpas entre Johnny e Ben só surgem na cena final. Não há qualquer alma na relação dos personagens, que sequer parecem gostar uns dos outros, tornando sua união final uma mera conveniência e comprometendo irremediavelmente seu elo com o lado de cá da tela, por mais que os atores se esforcem – e Miles Teller, em particular, faz o possível para ilustrar a pouca sociabilidade de Reed sem transformá-lo numa caricatura, sendo bem-sucedido. Por sua vez, Michael B. Jordan transforma seu Johnny Storm num contraponto ao (péssimo) de Chris Evans, mas apenas o mantém como uma figura aborrecida e mal-humorada, enquanto Kate Mara e Jamie Bell mal tem tempo de explorar qualquer nuance de Sue e Ben. E se Toby Kebbell também é sabotado pelo roteiro, que logo transforma o Doutor Destino num genérico aspirante a Ultron, Reg E. Cathey acaba se destacando como o “mentor” Franklin Storm, mesmo com sua dinâmica com os filhos sendo (como todo o resto) pobremente desenvolvida.

Também prejudicado pelos intérpretes absolutamente inexpressivos dos jovens Reed e Ben, Quarteto Fantástico desmorona de vez em sua segunda metade: esquecendo-se que o período de “adaptação” costuma ser o ponto alto em obras do gênero, o roteiro o exclui completamente ao incluir uma elipse de um ano, após a qual todos já surgem em pleno domínio de suas habilidades. Embora inclua subtramas como a fuga de Reed, a raiva de Ben pelo amigo e o uso de Ben e Johnny pelos militares, a falta de estrutura entre estas as fazem parecer meras desculpas para atrasar o terceiro ato, já que várias são abandonadas sem cerimônia com o retorno de Victor. Falando nele, a ameaça representada pelo vilão é resolvida com uma facilidade decepcionante, algo que só é piorado pela condução absurdamente preguiçosa de Trank, que não parece ter qualquer ideia de como combinar os poderes do grupo. Não bastasse a brevidade da sequência, também irrita a insistência de Reed de explicar tudo o que Victor está fazendo.

Burocrática em seu desenvolvimento, gastando tempo demais com coisas triviais e descartando qualquer traço do humor e calor humano que garantiu longevidade ao seu material de origem, esta nova versão da Primeira Família da Marvel não chega a irritar como aqueles filmes da década passada, mas é fraca demais para despertar qualquer entusiasmo por novas aventuras do grupo. Não surpreende que a própria Fox estivesse tão insegura quanto ao material que entregou. Confirmando o conhecido dito, o melhor filme do Quarteto Fantástico continua a ser o sensacional Os Incríveis. E pelo visto, isso deve ser manter por um bom tempo…

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

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Homem-Formiga (2015)

Homem-Formiga (Ant-Man, EUA, 2015)

Direção: Peyton Reed

Roteiro: Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd, baseado nos personagens de Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby.

Com: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer, Abby Ryder Fortson, David Datsmachian, T.I., Anthony Mackie, Martin Donovan, John Slattery e Hayley Atwell.

Muita gente ficou inclinada a detestar Homem-Formiga quando Edgar Wright saiu abruptamente do projeto às vésperas do início das filmagens, alegando “diferenças criativas” com a Marvel. Essa inclinação virou certeza quando o estúdio escalou Peyton Reed (Sim, Senhor, Separados pelo Casamento) para substitui-lo. Se o filme teria sido melhor com Wright no comando, jamais saberemos (muito provavelmente sim) – mas sua ausência significa um desastre? Felizmente, a resposta é um sonoro “não”, pelo contrário. Reed conduz Homem-Formiga com uma escala bem menor que Era de Ultron, o que não é de maneira alguma um demérito, já que o filme funciona muito bem por sua agilidade, leveza e, principalmente, por não hesitar em fazer graça com a própria premissa.

Escrito por Wright e seu pupilo Joe Cornish (do ótimo Ataque ao Prédio) e posteriormente adaptado por Adam McKay (O Âncora) e Paul Rudd, o roteiro quebra qualquer perspectiva de se levar muito a sério desde o início, quando vemos o ladrão Scott Lang (Rudd) prestes a deixar a prisão. Incapaz de conseguir um emprego estável que lhe permita se aproximar da filha pequena, Scott é atraído por um golpe aparentemente lucrativo, mas só o que consegue roubar é um estranho uniforme que o encolhe a um tamanho minúsculo. Em troca de ajuda, o criador do uniforme Hank Pym (Douglas) lhe pede um trabalho arriscado: roubar uma versão militarizada do traje que está sendo desenvolvida por Darren Cross (Stoll), antigo protegido de Pym – um plano que tem a resistência de Hope van Dyne (Lilly), filha do veterano cientista.

Jamais perdendo de vista que o conceito de um herói cujas habilidades são encolher e controlar formigas é um tanto… patético, a nova produção da Marvel sequer tenta passar perto do tom mais sombrio empregado por Joss Whedon em Era de Ultron, aplicando fartas doses de comédia que fazem com que o filme se torne quase tão fluido quanto Guardiões da Galáxia. Colocando-se de forma levemente afastada do núcleo conhecido até aqui (com exceção apenas da cena inicial, com Pym, Peggy Carter e Howard Stark na S.H.I.E.L.D.; e do divertido encontro de Scott com um Vingador), Homem-Formiga concentra-se mais na própria narrativa, funcionando como uma eficiente mistura do subgênero heist movie (filmes que envolvem roubos elaborados) com o universo dos super-heróis. Assim, seus pontos altos são o treinamento de Scott no uso do tamanho minúsculo e no controle dos insetos e, claro, a invasão ao prédio da Pym Tech, na qual o uso das formigas é crucial – e o simples fato de comprarmos essa ideia como plausível dentro das regras estabelecidas já dá uma dimensão do sucesso alcançado.

Com uma tendência irresistível para o sarcasmo, Scott Lang parece um papel feito sob medida para Paul Rudd, que, sempre carismático, abraça o tom leve da narrativa, mas nunca permite que as piadas envolvendo o conceito do Homem-Formiga tornem tudo ridículo. Além disso, Rudd exibe uma segurança durante os roubos e invasões que torna compreensível a decisão de Pym de empregá-lo em seu golpe. Por sua vez, Michael Douglas parece estar se divertindo a valer como Hank Pym, entregando com gosto os diálogos espirituosos do cientista ao mesmo tempo em que exibe autoridade e peso dramático suficientes para que nos importemos com o destino do personagem e seu relacionamento conturbado com a filha (além de conduzir um tocante flashback que também honra as origens do personagem como o Homem-Formiga original e sua parceria com a Vespa). Já Evangeline Lilly, embora mostre uma persona durona e cativante, fica por enquanto apenas na promessa de uma heroína (o que não deve demorar a se concretizar), ao passo que Corey Stoll, como o vilão Darren Cross, pouco pode fazer além do tipo executivo frio e inescrupuloso; e Judy Greer é desperdiçada em um papel secundário ingrato.

Exagerando um pouco na quantidade de diálogos expositivos (embora alguns acabem se justificando pelo uniforme cobrir o rosto de Rudd – particularmente num momento-chave do filme), Peyton Reed por vezes exibe ideias divertidas para disfarçar o fato, como ao mesclar duas sequências em flashback com a rápida narração de Michael Peña (e que lembra alguns maneirismos típicos de Edgar Wright, como os planos de ação de Shaun e Ed em Todo Mundo Quase Morto) – além de exibir um bizarro humor negro ao trazer inocentes ovelhinhas como cobaias dos experimentos de Cross. E se os efeitos visuais que retratam a perspectiva “micro” de Scott não são excepcionais, são eficientes o bastante para que o espectador não estranhe o que está na tela. Já como diretor de ação, Reed certamente mostra-se limitado – e é uma pena que, por exemplo, ele falhe em estabelecer melhor a geografia dos ambientes percorridos pelo “mini-Scott”, especialmente durante a invasão da Pym Tech. Sim, faz sentido que as imagens sejam mais confusas enquanto Scott está aprendendo a usar o traje, mas elas não se tornam muito mais estáveis mesmo depois que ele já domina o truque. Em contrapartida, o diretor se sai melhor em aproveitar as demais possibilidades do uniforme e das invenções de Pym, conseguindo inserir um humor eficaz mesmo em sequências mais sérias (notadamente, o confronto final entre Scott e Darren Cross).

Ficando atrás apenas de Capitão América 2 e Guardiões da Galáxia entre os títulos da Fase 2, Homem-Formiga pode ter seus problemas, mas é um dos exemplares mais divertidos do Universo Marvel Cinematográfico até aqui. Entrega-se sem pudor à comédia, mas jamais deixa de prestar respeito ao seu material de origem. E a julgar pela leveza bem-sucedida vista aqui e em Guardiões, é de se esperar que a Marvel não resolva e investir em tratamentos excessivamente solenes para sua galeria de heróis. Embora não tenha gerado nenhuma obra-prima, a iniciativa do estúdio tem se mostrado uma fonte quase sempre segura de bom entretenimento.

OBS: como de costume, há cenas extras – uma durante os créditos e outra no final. Desta vez, ambas são importantes.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Agents of S.H.I.E.L.D. – 2ª temporada (2014-2015)

Agents of S.H.I.E.L.D. – 2ª temporada (2014-2015, ABC)

Showrunners: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Joss Whedon

Com: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-na Wen, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Nick Blood, Adrianne Palicki, Brett Dalton, Henry Simmons, Kyle MacLachlan, Ruth Negga, Reed Diamond, B.J. Britt, Dichen Lachman, Luke Mitchell, Simon Kassianides, J. August Richards, Jamie Harris, Adrian Pasdar, Maya Stojan, Blair Underwood, Lucy Lawless, Brian Patrick Wade, Patton Oswalt, Tim DeKay, Christine Adams, Henry Goodman, Neal McDonough, Kenneth Choi, Cobie Smulders, Jaimie Alexander, Hayley Atwell e Edward James Olmos.

Como disse no texto sobre a excelente série do Demolidor, Agents of S.H.I.E.L.D. – a primeira encomenda da Marvel para a TV, ligando-se ao crescente Universo Cinematográfico – soava perdida em suas intenções, parecendo não ter a menor ideia do que fazer com o próprio material. Resultado: mesmo com um piloto eficaz, a falta de uma narrativa consistente afastou a audiência, uma vez que os mistérios não eram dos mais cativantes, os episódios seguintes pareciam uma sucessão interminável de fillers e os personagens, mesmo simpáticos, caminhavam para resoluções manjadas. Quando tudo parecia perdido, veio o díptico 1.16-17 (End of the Beginning e Turn, Turn, Turn) que, conectado à queda da agência vista em Capitão América 2, conferiu à série tudo o que lhe faltava: urgência, mistérios e conspirações instigantes, vilões realmente perigosos e plot twists surpreendentes. Nos sete episódios finais, Agents of S.H.I.E.L.D. finalmente mostrou a que veio.

Pois nada como ver uma série aprender com seus erros. Embora presos ao arcaico formato de temporada com mais de 20 episódios, os showrunners tomaram a acertadíssima decisão de criar dois arcos narrativos menores, que, mesmo interligados, se desenvolvem de forma distinta e impedem que as tramas se arrastem indefinidamente. Sim, houve um e outro episódio com jeito de filler e, de modo geral, não atinge a mesma excelência dos outros seriados já lançados pela Marvel (Agent Carter e Demolidor), mas depois do que foi visto no 1º ano, a melhora é indiscutível. Além disso, ela também superou um problema que fragilizou boa parte da temporada de estreia: a excessiva submissão ao que foi visto nos filmes (ainda que, paradoxalmente, tenha sido um deles que lhe deu a força que não tinha), já que, com exceção de uns poucos episódios levemente ligados a Era de Ultron, a 2ª temporada se sustentou de forma independente (mas claro, com abundantes easter eggs).

Episódios 2.01 a 2.10: Heil Hidra

No início da temporada, temos Phil Coulson (Gregg), agora dirigindo uma nova S.H.I.E.L.D. secreta por ordem de Nick Fury, perseguindo os remanescentes da Hidra com os poucos agentes que recuperou. Enquanto isso, Coulson passa a sofrer cada vez mais os efeitos colaterais da droga alienígena que o “ressuscitou”, escrevendo compulsivamente estranhos símbolos que não compreende. Temendo enlouquecer como John Garrett (Bill Paxton), ele se intriga que Skye (Bennet), também salva pelo soro, não manifeste os mesmos sintomas. Enquanto S.H.I.E.L.D. e Hidra perseguem um poderoso objeto confiscado dos nazistas por Peggy Carter (Atwell) no final da Segunda Guerra, segredos passados de Skye começam a ser revelados por Ward (Dalton) e Raina (Negga).

Mesmo lidando com um grupo enorme de personagens, a série é eficaz em desenvolver suas relações de forma objetiva e quase sempre econômica (uma má exceção é a Simmons imaginada por Fitz nos primeiros episódios). Logo percebemos onde os veteranos se encontram e quais suas motivações e problemas atuais. Dentre os novatos, Mack (Simmons) acaba funcionando como um escape para o lesionado Fitz e o ex-casal Lance Hunter (Blood) e Bobbi Morse (Palicki, tão badass quanto a May de Ming-na Wen) tem sua dinâmica de amor e ódio tratada não apenas como alívio cômico (a hilária insistência de Hunter em demonizar a ex-esposa revela não exatamente o que ele gostaria), mas como algo que também afeta aqueles personagens, que buscam sacrificar seus sentimentos por serem incapazes de confiar um no outro.

Estabelecido o núcleo de personagens, a série passa a retomar perguntas que ficaram pendentes da temporada anterior: qual a verdadeira origem e natureza de Skye? Esse mistério passa a ter implicações cada vez mais estranhas não só com a paranoia de Coulson, mas também com o retorno de Raina, ainda mais intrigante. A misteriosa mulher tem sua inabalável segurança quebrada menos ao ser perseguida pela Hidra do que por sua associação com o pai de Skye. E não é para menos: Calvin é uma figura que exala instabilidade, oscilando entre o ar terno sempre que se refere à filha, o calculismo de seus esquemas e rompantes súbitos de violência – e o excelente Kyle MacLachlan (o eterno agente Dale Cooper de Twin Peaks) transita de forma magnífica entre essas nuances do personagem. MacLachlan consegue comunicar muito através de pouco (a personalidade quebrada de Calvin é exposta pelo gestual rápido que não parece se completar e pelos sorrisos aparentemente aleatórios, além de figurinos desalinhados) ao mesmo tempo em que seus olhos, quando não repletos de raiva, deixam transparecer toda a sua dor.

MacLachlan não é o único vilão a se destacar. Reed Diamond, como o novo líder da Hidra Daniel Whitehall, realmente perturba pela frieza que demonstra não apenas durante a lavagem cerebral que realiza na pobre Agente 33 (Stojan) como com o que faz com a jovem chinesa em 2.08 – The Things We Bury, um dos mais gráficos da série. Mas quem surpreende (embora se mantenha como figura periférica na maior parte do tempo) é mesmo Grant Ward, cuja eficácia nessa temporada é um verdadeiro milagre: contrariando qualquer expectativa que poderíamos ter a seu respeito no início da série, Ward se converteu num sujeito absolutamente imprevisível – e é ótimo que, mesmo quando a narrativa parece ir na direção de redimir o personagem, logo o faz mostrar novamente as garras do sociopata calculista que é e sempre foi.

Plantando com cuidado as pistas que levarão à trama do arco seguinte, essa primeira metade da 2ª temporada raramente pisa em falso. Algumas subtramas se prolongam demais (a Simmons ilusória) e outras se encerram talvez mais cedo do que poderiam (a razão da ausência de Simmons, o conflito da S.H.I.E.L.D. com o Exército), mas, de modo geral, acerta por não segurar os principais mistérios por um tempo desnecessário – um modus operandi também seguido na metade seguinte e cuja falta tanto custou ao 1º ano. Que esses mistérios realmente sejam interessantes é só mais uma qualidade.

Episódios 2.11 a 2.22: Sejam bem-vindos, Inumanos

Depois dos incidentes vistos em What They Become, a equipe da S.H.I.E.L.D. precisa lidar com as consequências do ocorrido: Skye e Raina ressurgem modificadas e o confronto com a Hidra teve um alto custo. Enquanto Skye é temporariamente afastada da ação por Coulson e May, estes enfrentam o surgimento de uma nova agência secreta de segurança global, liderada por Robert Gonzales (Olmos). Em meio a esse embate, Skye é levada a um santuário remoto para pessoas com poderes especiais ativados pelas Névoas Terrígenas, onde é treinada por Jiaying (Lachman).

Mais longo do que o arco anterior, essa segunda metade demora um pouco a engrenar. 2.11 – Aftershocks busca lidar com as consequências da ação frenética do anterior, mas a nova trama só começa para valer em 2.15 – One Door Closes, enquanto os corretos Who You Really Are e Love in the Time of Hydra e o fraco One of Us se preocupam mais em posicionar as peças para o jogo. Depois, temos a divisão do foco entre o embate com a agência de Gonzales, os esforços de Coulson e Hunter nos bastidores e a jornada pessoal de Skye, que, com suas origens devidamente reveladas, aprende a usar seus recém-adquiridos poderes junto aos Inumanos (cuja origem é explicada pela asgardiana Lady Sif, numa aparição bem mais orgânica que a da temporada passada). Entre este grupo, também se encontra Raina, que mal consegue viver com a aparência bizarra que assumiu após a Terrigênese.

Sim, os Inumanos já estão oficialmente na área, mesmo com seu filme sendo lançado somente em 2019. Não deixa de ser um passo arriscado, mas também ilustra uma mudança drástica na natureza de Agents of S.H.I.E.L.D.. Tendo começado como um mero complemento de qualidade questionável para o Universo Cinematográfico Marvel, agora a série passa a se adiantar, introduzindo não apenas elementos, mas temáticas que deverão ser sentidas nos próximos filmes – mas claro, sem que um seja um pré-requisito indispensável para o outro. E não apenas os Inumanos: as enormes reservas de Gonzales contra indivíduos com poderes tem muito a ver com a temática trabalhada por Mark Millar em Guerra Civil, que, como se sabe, será a base para Capitão América 3, a ser lançado no próximo mês de abril. Também há um pouco das questões de (auto)aceitação bastante trabalhadas na franquia X-Men: como os direitos de uso dos mutantes estão com a Fox, o uso dos Inumanos (também) para esse fim acaba sendo lógico.

Mesmo demorando mais para empolgar, essa segunda metade da temporada não deixa a desejar quando o faz, incluindo bastante ação (a invasão à base da Hidra no Ártico em 2.19 – The Dirty Half Dozen ganha até mesmo da fantástica luta May vs. May vista no quarto episódio), efeitos visuais bem superiores aos da 1ª temporada e eficientes trabalhos de maquiagem (com destaque para Raina e Deathlok, é claro). Além disso, chama atenção o tom violento que a série assume diversas vezes, com várias mortes importantes e a porradaria brutal de uma torturada Bobbi Morse com seus captores no season finale; e mesmo a disposição de frustrar expectativas acerca de algumas figuras (notável em 2.20 – Scars). Mas talvez o mais inesperado é como essa parte consegue usar nada menos que dois episódios fortemente calcados em flashbacks sem que isso soe como encheção de linguiça, contribuindo para desenvolver personagens e as conspirações vistas ao longo da série.

Encerrando de forma satisfatória as principais linhas narrativas que estavam pendentes desde o início da série (e a resolução da trama envolvendo a família de Skye permite que MacLachlan brilhe mais uma vez), Agents of S.H.I.E.L.D. termina seu segundo ano numa nota muito mais promissora e divertida do que o primeiro, tendo de fato criado uma narrativa seriada ao invés do monótono estilo “caso da semana” que outrora teve. Fica a pergunta de como a série lidará com o aumento de figuras superpoderosas em seu núcleo, já que começou sendo sobre humanos comuns em um mundo de heróis, mas os instigantes cliffhangers e a promessa de um novo inimigo temível deixam a sensação (e a torcida) de que a série tem tudo para manter o fôlego que mostrou aqui.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Vingadores: Era de Ultron (2015)

Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, EUA, 2015)

Direção e roteiro: Joss Whedon, baseado nos personagens da Marvel.

Com: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Aaron Taylor-Johnson, Paul Bettany, Cobie Smulders, Samuel L. Jackson, Don Cheadle, Andy Serkis, Thomas Kretschmann, Claudia Kim, Linda Cardellini, Anthony Mackie, Stellan Skarsgård, Julie Delpy, Hayley Atwell, Idris Elba e as vozes de Lou Ferrigno e James Spader.

Em 2012, Os Vingadores era um passo fundamental, mas ainda incipiente, no estabelecimento do Universo Marvel como algo viável no cinema. Assim, um motivo que levou algumas pessoas a torcer o nariz para o filme é que, com tantos elementos para unir, a trama soava quase banal – algo que, pessoalmente, não considerei problemático naquele trabalho de Joss Whedon. Aqui, isso surge diferente e acaba pesando tanto a favor quanto contra a nova reunião dos Maiores Heróis da Terra: se por um lado a trama já é posta em movimento desde o início (e, de modo geral, funciona bem), esta acaba prejudicada pela inclinação de Whedon por complicá-la mais do que seria necessário.

Fica claro que, depois dos eventos de Capitão América 2, os Vingadores se reagruparam para desbaratar as operações remanescentes da Hidra – e já na sequência de abertura, o grupo se aproxima da última base, que abriga não apenas o cetro usado por Loki, mas também os poderosos gêmeos Wanda e Pietro Maximoff (Olsen e Taylor-Johnson). A missão é bem-sucedida, mas Tony Stark, manipulado por Wanda, decide usar o cetro para criar Ultron (Spader), um programa que deveria manter ameaças contra a Terra sob controle. No entanto, o programa torna-se senciente e passa a encarar os próprios heróis (e, por tabela, seus protegidos) como uma calamidade a ser neutralizada. Sem possuir uma forma física definitiva, Ultron parte pelo mundo em busca dos recursos necessários para ganhar um corpo permanente e ainda mais poderoso, lançando os Vingadores numa corrida desesperada para impedi-lo.

Resgatando a atmosfera que fez da primeira reunião uma experiência tão divertida, Era de Ultron volta a se sair bem na constante troca de provocações entre os heróis, que não apenas fazem rir na maior parte das vezes como também deixam claro que a harmonia entre seres tão poderosos é extremamente delicada. Há espaço para aproximações, como a subtrama envolvendo Bruce Banner e a Viúva Negra, mas as divisões logo passam a prevalecer – notadamente graças à disposição de Stark de tomar atitudes controversas sem consultar os demais, o que aborrece particularmente Steve Rogers. Da mesma forma, seguindo o plano de longo prazo da Marvel, elementos importantes para filmes futuros são introduzidos organicamente já nesta trama, como Wakanda, lar do Pantera Negra, a diferença da concepção de heroísmo entre Stark e Rogers e uma nova Joia do Infinito.

O problema é que, como dito, por vezes Joss Whedon faz as vias mais complicadas para chegar a determinado ponto sem muita necessidade para tal – e nem sempre deixando claro seu propósito. Por que, por exemplo, Ultron mantém Natasha viva depois de capturá-la? O que aconteceu no tal poço visitado por Thor que o levou a tomar determinada atitude com relação ao corpo sintético de Ultron? E por que precisaria da ajuda de Selvig? Aliás, qual a natureza do poço? São faltas graves tendo em vista que estes filmes tem fiado grande parte do seu sucesso menos em seus eventos do que na maneira com que estes se desenrolam. Além disso, é lamentável que alguns personagens sejam saiam de cena sem tempo de provocar uma impressão maior: se o Ulysses Klaue de Andy Serkis ao menos deve retornar nas futuras histórias com o Pantera Negra, o Barão von Strucker de Thomas Krestchmann jamais chega a dizer a que veio.

Mesmo assumindo um tom mais sombrio que a primeira parte, Whedon é bem-sucedido em evitar (com razão) uma narrativa muito pesada – e grande parte disso deve-se a Ultron: embora seu desejo de violência cresça ao longo de todo o filme, o sistema também aprende com os dados que absorve pela Internet, fazendo constantes citações literárias e identificando-se especialmente com a “libertação dos fios” de Pinóquio (a canção “I’ve Got No Strings” do clássico de 1940 é ouvida em certo momento). Isso, somado à caracterização cínica de James Spader e aos excelentes efeitos visuais, até compensa os planos de Ultron serem confusos e clichês. E se Aaron Taylor-Johnson, mesmo irreverente, acaba ficando à sombra da performance de Evan Peters em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (cujo Mercúrio teve bem menos tempo de tela), Elizabeth Olsen confere às habilidades de Wanda Maximoff um ar que flerta com o sadismo, sendo na prática a figura que mais dá trabalho aos Vingadores. Da equipe original, quem se beneficia com mais exposição são Jeremy Renner e Mark Ruffalo: enquanto o primeiro confere a Clint Barton um senso de humor cortante e irônico, o segundo conduz com sensibilidade a queda de confiança de Banner em suas próprias habilidades, que cresce até um novo desejo de isolamento.

Contando com composições de quadro que realmente parecem saídas de uma HQ, Vingadores 2 volta a acertar na condução das sequências de ação, tanto em estilo (vemos novamente um impossível plano sem cortes que mostra os heróis lutando em pontos diferentes) quanto em intensidade, evitando os cortes frenéticos e combinando os poderes e gadgets dos heróis de forma eficaz. Dentre essas sequências, merecem destaque o ataque ao castelo na Sokovia, ainda na abertura do filme, e a longa perseguição nas ruas na Coreia do Sul. Já a antecipada luta entre o Hulk e Tony Stark, embora eficaz em estabelecer a fúria desproporcional do verdão, acaba se prolongando bem mais do que o ideal. Por outro lado, Whedon se sai especialmente bem na atmosfera sinistra das visões induzidas por Wanda, especialmente a de Stark (que remete ao desfecho do primeiro filme) e a de Thor.

Superior a Homem de Ferro 3 e Thor: O Mundo Sombrio, mas deixando um pouco a desejar frente à excelência de Capitão América 2 e Guardiões da Galáxia, Era de Ultron é mais um passo sólido da Marvel Studios na construção de um universo compartilhado. Apesar de suas falhas e de perder um pouco de fôlego no terceiro ato, mantém uma expectativa promissora pelo futuro da franquia – o que não é pouca coisa tendo em vista a quantidade de personagens pouco conhecidos a serem introduzidos nos próximos anos (e que deixa a tarefa da Warner com a DC ainda mais complicada). Mas conter-se um pouco no fan service não fará mal algum.

OBS: Evite a versão em 3D do filme, que, além de convertida, compromete a clareza das imagens (as várias sequências em ambientes escuros visivelmente não tiveram qualquer compensação).

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Demolidor – 1ª temporada (2015)

Demolidor (Daredevil, 2015, EUA, Netflix)

Showrunners: Drew Goddard e Steven S. DeKnight, baseado nos personagens de Stan Lee e Bill Everett.

Com: Charlie Cox, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Vincent D’Onofrio, Ayelet Zurer, Rosario Dawson, Vondie Curtis-Hall, Toby Leonard Moore, Scott Glenn, Bob Gunton, Wai Ching Ho, Peter McRobbie, Nikolai Nikolaeff, Peter Shinkoda, Skylar Gaertner, John Patrick Hayden, Judith Delgado e Phyllis Sommerville.

Após Os Vingadores, que selou o sucesso do Universo Cinematográfico Marvel, o próximo passo lógico do estúdio era investir nas séries televisivas live-action, contando histórias paralelas ao núcleo narrativo principal. O começo não foi promissor: Agents of S.H.I.E.L.D. teve um início sofrível, padecendo com um ritmo claudicante e uma trama que não parecia ir a lugar algum – ao menos até o episódio 1.16, quando sofre a influência dos explosivos acontecimentos de Capitão América 2 e finalmente ganha o peso que lhe faltava (o que vem se mantendo na ótima 2ª temporada). Já Agent Carter, que surgiu como pouco mais que um tapa-buraco para o hiato da primeira, revelou-se uma agradabilíssima surpresa ao trazer a espiã apresentada em O Primeiro Vingador como rara protagonista feminina de um projeto de ação, resultando numa aventura divertida, enxuta e retrô que certamente merece voltar às telas (algo que, infelizmente, a ABC ainda não confirmou).

E finalmente, chegamos a Demolidor, primeira série da parceria da Marvel com o Netflix (as próximas serão A.K.A. Jessica Jones – prevista para o final do ano –, Luke Cage e Punho de Ferro) que promete focar em heróis com temáticas mais urbanas e lidando com crimes comuns. Iniciando algum tempo após a Batalha de Nova York, logo fica claro como a luta entre os Chitauri e os Vingadores afetou a vida dos cidadãos comuns de Manhattan – especialmente na região de Hell’s Kitchen, onde a destruição desencadeou uma agressiva especulação imobiliária. É neste contexto que somos apresentados aos jovens Matt Murdock (Cox) e Foggy Nelson (Henson), advogados que acabam de abrir um escritório na área. Logo os dois se colocam na defesa de Karen Page (Woll), acusada de um assassinato que ela jura não ter cometido. Com as informações reveladas pela garota, Murdock usa seu alter ego justiceiro para pressionar os líderes das facções criminosas do bairro, aproximando-se cada vez mais de um homem potencialmente ligado à questão imobiliária: Wilson Fisk (D’Onofrio). Enquanto isso, Page auxilia o veterano repórter Ben Urich (Curtis-Hall) em uma investigação similar.

Sem qualquer vestígio da atmosfera leve de “colegas” como Guardiões da Galáxia, Os Vingadores e a primeira fase de Agents of S.H.I.E.L.D., Demolidor não demora a estabelecer que se passa nas ruas de um bairro perigoso: suas ameaças não são alienígenas de outra dimensão ou sociedades secretas que buscam controlar o mundo, mas traficantes de drogas, assaltantes, estupradores e assassinos – algo que, somado ao uniforme preto, denota forte influência do período em que Frank Miller esteve à frente do personagem (principalmente no arco O Homem sem Medo). A boa notícia é que, embora seja sem dúvida o produto mais “realista” já entregue pela Marvel, a série não abdica totalmente de elementos fantásticos, coexistindo tranquilamente no mesmo universo que os Vingadores, a S.H.I.E.L.D. e os Guardiões (como sugerem as pistas plantadas pelo episódio centrado em Stick, mestre do protagonista, e as últimas cenas com a vilã Madame Gao). Ainda assim, o tom pesado da série é inquestionável: as lutas são coreografadas de maneira seca e direta; tiros, socos e facadas tem consequências sangrentas e há uma execução particularmente grotesca em sua violência gráfica.

Essa descrição deve ter feito Demolidor parecer excessivamente agitada, o que não é o caso. Desenvolvendo com calma suas situações e personagens, a série equilibra com sabedoria as sequências de ação com aquelas onde vemos Murdock exercendo sua formação jurídica e os motivos que tornam Wilson Fisk uma figura tão temida. Com relação ao primeiro, Murdock surge como a figura heroica mais vulnerável do Universo Marvel até aqui: cego e financeiramente limitado, o rapaz sequer conta com um equipamento decente de proteção, adquirindo parcos itens pela Internet que não o impedem de levar surras brutais – o que ele busca compensar com os demais sentidos ampliados a níveis assombrosos (algo que a série – acertadamente – não se preocupa em explicar) e exímia habilidade em combate físico. Mas o brilhantismo do roteiro e da performance do carismático Charlie Cox (de Stardust e Boardwalk Empire) reside em expor que, mesmo bem intencionado, Murdock possui características pouco atraentes que parecem prestes a aflorar sempre que surge sob a máscara – e, como outros personagens apontam, suas justificativas de querer “melhorar a cidade” soam perigosamente próximas às de Fisk. No entanto, Matt assume suas ações quase com a mesma força com que as questiona, o que, somado à notória religiosidade do personagem, rende interessantes cenas em que o rapaz discute com seu padre dúvidas morais e teológicas, estabelecendo-o como alguém em constante conflito consigo mesmo (uma dualidade também expressa por um católico que elege visual e alcunha original remetendo ao Demônio).

Esse autoquestionamento, portanto, é o fator crucial que separa Murdock de Wilson Fisk, que, mesmo alegando sinceramente não extrair qualquer prazer de suas ações mais cruéis (exceto as que o afetam pessoalmente, quando então se entrega a uma fúria animalesca), considera-as absolutamente necessárias em função de um bem maior. E se a oposição entre o Coringa e Batman (herói frequentemente comparado com o Demolidor, algo reconhecido na piadinha de Foggy sobre Matt “ter ouvidos de morcego”) fascina em função da imprevisibilidade do primeiro, o que atrai na rivalidade entre Murdock e Fisk é que ambos buscam agir de forma racional, constantemente tentando antecipar o próximo movimento do inimigo, embora sejam sujeitos a cometer erros de avaliação. Além disso, Vincent D’Onofrio (Nascido para Matar) surpreende ao encarnar Fisk como um homem que, apesar de se impor fisicamente e ser capaz de ações monstruosas, se expressa na maior parte do tempo de forma contida, até mesmo tímida. Capaz de criar laços de respeito e até mesmo de afeto com seus comandados e outros chefões do crime, Fisk é, no entanto, um homem profundamente solitário cuja personalidade foi formada pelo pior lado de Hell’s Kitchen – e é ao ter sua desajeitada aproximação romântica correspondida pela curadora de arte Vanessa (Zurer) que o sujeito abandona a cautela habitual, o que preocupa seus pares.

O elenco secundário de Demolidor não fica atrás: Elden Henson entrega um Foggy divertido e emotivo, mas que também questiona constantemente sua difícil escolha profissional; Deborah Ann Woll consegue um efeito curioso com sua Karen Page, convencendo o espectador de suas boas intenções no presente ao mesmo tempo em que perturba com sugestões de um passado misterioso e provavelmente violento; Rosario Dawson encarna uma espécie de bússola moral para as ações de Matt e Toby Leonard Moore evita transformar o braço-direito de Fisk numa caricatura, ajudando a humanizar o vilão, embora surja quase tão ameaçador quanto este. Mas o destaque vai mesmo para Vondie Curtis-Hall, que retrata Ben Urich como o tipo de repórter que parece deslocado no tempo, embora já cansando de buscar a relevância social da atividade num jornal que já não está interessado em tal coisa. Aliás, o cinismo da série com relação à atividade jornalística contemporânea é notório (e justificado), expressado não apenas nas constantes dificuldades profissionais de Urich como também no discurso que Fisk lhe faz em certo momento.

Além disso, essa primeira temporada destaca-se em seu ótimo trabalho de design de som, ressaltando a importância que os menores ruídos tem para que um personagem cego tenha noção de espaço (além de seu “detector de mentiras” cardíaco) e, é claro, a crueza das várias lutas, cujos golpes soam sempre dolorosos. Da mesma forma, a direção de arte é eficaz em transmitir informações importantes sobre os personagens de forma rápida, como o escritório de Ben Urich atulhado de pastas e livros; o apartamento luxuoso, mas frio, de Wilson Fisk; e o escritório quase vazio de Matt e Foggy. Finalmente, a condução da série, ciente da natureza de binge-watching do Netflix, não se preocupa em encerrar todos os episódios com cliffhangers, apostando em cenas mais fechadas com a própria trama – merecendo menção o desfecho do episódio 4, quando vemos do que Fisk é capaz e, é claro, o já icônico final do episódio 2 em que Murdock avança, num longo plano-sequência, por um corredor repleto de capangas, batendo e apanhando em igual medida e claramente se cansando no decorrer da cena.

Ligando-se apenas tangencialmente ao restante do Universo Marvel (repare nas capas emolduradas no escritório de Ben Urich, que se referem à Batalha de Nova York e à luta entre o Hulk e o Abominável no Harlem, além de o rival do pai de Matt surgir como um vilão no início da 2ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D.), a série também inclui uma série de referências a elementos particulares do núcleo do Demolidor, indicando que Elektra (a “garota grega” mencionada por Foggy num flashback) e possivelmente o Tentáculo devem marcar presença nas próximas temporadas. E baseado na ótima qualidade do que vimos aqui, é bom que o Diabo Cego volte o quanto antes.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

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