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Ponte dos Espiões (2015)

Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, EUA, 2015)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Matt Charman, Ethan Coen e Joel Coen

Com: Tom Hanks, Mark Rylance, Amy Ryan, Austin Stowell, Sebastian Koch, Eve Hewson, Domenick Lombardozzi, Alan Alda, Jesse Plemons, Dakin Matthews, Nadja Bobyleva, Peter McRobbie, Will Rogers, Billy Magnussen.

Se há uma palavra que não pode ser associada com as temáticas da filmografia de Steven Spielberg, esta é “cinismo” – exceção feita apenas ao pessimista (e excepcional) Munique, lançado discretamente há 10 anos. É sempre possível, na obra do veterano cineasta, perceber lados morais claros que tornam a torcida e o apoio do espectador algo quase inevitável. Pode ser chamado de simplismo, mas o fato é que, embora por vezes escorregue num excesso de melodrama, Spielberg sabe filmar esse tipo de obra com uma classe formal inegável. Em Ponte dos Espiões, o diretor segue uma espécie de linha Frank Capra, trazendo um protagonista em oposição a uma estrutura indiferente – adicionando mais um exemplar sólido ao seu invejável currículo.

Inspirado num caso ocorrido durante a Guerra Fria, Ponte dos Espiões acompanha James Donovan (Hanks), advogado de uma seguradora que é convidado pelo governo americano a representar a defesa de Rudolf Abel (Rylance), acusado de ser espião soviético. Mesmo enfrentando uma intensa reprovação pública, Donovan insiste que Abel seja mantido vivo – um apelo que se revela proverbial quando os russos capturam o piloto americano Francis Gary Powers (Stowell), derrubado de um avião de reconhecimento. É então que o advogado recebe a tarefa de negociar uma troca de prisioneiros com a União Soviética, mas a situação se complica quando um estudante americano é preso na Alemanha Oriental e Donovan resolve tentar sua libertação.

Pode parecer uma clássica abordagem “americano salva o dia”, mas ficar nessa análise é algo superficial. Spielberg evita aqui o típico maniqueísmo da Guerra Fria “ianque bom, comuna mau”. Aliás, boa parte da primeira hora de projeção foca-se na paranoia macarthista que assolou os Estados Unidos com força excepcional entre os anos 1950 e início dos 60, na qual a menor suspeita de comunismo era sinônimo de crime patriótico – na prática, forçando um esvaziamento no debate político em função de posições irredutíveis. Inteligente, Donovan percebe que tal oposição é contraproducente, sendo íntegro o bastante ao recusar a sugestão de que a defesa de Abel é uma mera formalidade para suavizar uma condenação sumária, fazendo o possível para garantir ao réu um julgamento de verdade – o que não significa negar a posição de Abel como inimigo, a cuja lealdade Donovan não consegue deixar de admirar. Ao expor sutilmente a hipocrisia que cerca a situação de Abel, Spielberg acaba fazendo não só uma eloquente defesa da isonomia jurídica como também critica a lógica dicotômica que norteou a Guerra Fria.

Boa parte da eficiência dessa dinâmica vem da ótima performance de Mark Rylance, que dá ao estoicismo de Abel um caráter ironicamente divertido : capturado pela nação inimiga, ele demonstra uma inata compreensão do que rege a disputa geopolítica, o que pode custar sua vida mesmo que seja devolvido (“O chefe nem sempre tem razão, mas é sempre o chefe”), mas isso não o impede de se manter firme em sua posição, nem de admirar a persistência de Donovan – uma química em cena que remete um pouco à de Liam Neeson e Ben Kingsley em A Lista de Schindler. Por sua vez, Tom Hanks mostra-se uma escolha natural para James Donovan: tendo construído sua carreira majoritariamente em personagens simpáticos, o ator convence naturalmente da honestidade e bom caráter do advogado – e não é difícil imaginar James Stewart (eternizado como o “homem comum” de Capra) num papel similar em outros tempos.

Com roteiro de Matt Charman e dos irmãos Coen, é evitado, aqui, um problema que prejudicou o bom Lincoln: embora estabeleça Donovan como um típico homem de família, a narrativa a deixa em segundo plano por reconhecer que a prioridade que o define como personagem é sua atuação naquela delicada crise internacional. Assim, ao invés da constante quebra de ritmo vista em seu trabalho anterior (onde boa parte das cenas com Sally Field e Joseph Gordon-Levitt poderia ser descartada sem grande prejuízo), Spielberg conduz a trama com foco e disciplina: desde o início, o clima de desconfiança é estabelecido em uma caminhada de Abel, quando este é seguido por um agente da CIA que, por sua vez, também traz reforços para garantir o cumprimento da tarefa. Além disso, as sequências envolvendo a família do personagem de Hanks servem mais para estabelecer de forma mais direta o clima de paranoia e os riscos aos quais todos são expostos do que para funcionar como motor sentimentalista – uma falha recorrente do diretor que, aqui, se mostra bem mais contida. Da mesma forma, as complicações envolvendo a negociação entre americanos, russos e alemães orientais (e a tensão entre os dois últimos) é exposta de modo a funcionarem de forma clara, mas sem recorrer a estereótipos datados (e a direção de arte merece aplausos em sua reconstituição de Berlim que, anos depois da derrota, ainda trazia uma quantidade considerável de escombros).

Contando com uma belíssima fotografia de Janusz Kaminski (parceiro de Spielberg desde A Lista de Schindler), Ponte dos Espiões é mais um ótimo êxito na carreira de seu diretor. Seu híbrido entre drama jurídico e espionagem sóbria (regado com toques precisos de humor) o traz num momento confortável dentro das características de sua obra, resultando numa das misturas mais orgânicas e bem-acabadas de suas tendências mais sérias e do cinema de entretenimento que o mantém em destaque há tantos anos.

(Originalmente publicado no site nonada.com.br)

Lincoln (2012)

Há dois filmes disputando espaço em Lincoln: o primeiro é a dramatização de um processo mais política e moralmente complexo do que parece à primeira vista. O segundo é a tentativa de retratar o principal personagem deste processo no âmbito pessoal de forma a humanizá-lo – algo dificultado pela maneira quase beatífica com que o 16º presidente dos Estados Unidos é visto por seus conterrâneos, e que certamente teve forte papel nas incríveis 12 indicações ao Oscar desta cinebiografia. E se o primeiro aspecto citado é sem dúvida interessante, o segundo poderia ser quase totalmente descartado.

Roteirizado pelo dramaturgo Tony Kushner (Munique), Lincoln abre mão da ideia original de Spielberg de realizar uma cinebiografia tradicional, optando por focar-se apenas nos últimos meses de vida do presidente (Day-Lewis) e em seu esforço para aprovar a 13ª Emenda que aboliria definitivamente a escravidão. Assim, Lincoln e seu secretário de Estado William Seward (Strathairn) contratam um grupo de negociadores que deverão conseguir mais votos de relutantes congressistas democratas enquanto lidam com as diversas alas do próprio Partido Republicano – desde os conservadores influenciados por Preston Blair (Holbrook) até os radicais abolicionistas cuja figura mais proeminente é Thaddeus Stevens (Jones).

Se há algo que Lincoln evidencia (e o parágrafo anterior descreve) é a assustadora decadência moral do Partido Republicano: hoje representado por ultraconservadores e fundamentalistas, aqui os republicanos (mesmo os menos afeitos a mudanças) surgem como políticos consideravelmente mais progressistas, enquanto o conservadorismo marca o Partido Democrata, majoritariamente antiabolicionista. Para o crédito do filme, isso não surge num maniqueísmo fácil de oposições absolutas, já que quase todos ali mudarão de lado caso percebam que isso pode lhes trazer benefícios. Da mesma forma, o roteiro também acerta ao trazer os congressistas tratando da Emenda menos como um ato humanitário do que como uma necessidade militar – e mesmo o anti-escravagista Lincoln jamais perde de vista o papel político da lei para encerrar a Guerra da Secessão.

Preso a um roteiro focado quase exclusivamente em diálogos, Spielberg faz um trabalho competente ao retratar os bastidores do poder, enfatizando que a 13ª Emenda foi aprovada mediante subornos e promessas de cargos que fariam a revista Veja se roer de excitação face à possibilidade de anos de pautas e colunas moralistas. Acertando em capturar o espírito da época, o diretor deixa claro que, para boa parte dos congressistas (e mesmo de figuras do povo), a escravidão não é uma questão moral, mas política; é pouco mais que um incômodo – tanto que muitos temem que a libertação dos negros conduzirá a uma escalada em seus direitos civis. Assim, são poucos os que defendem a extensão de tais direitos à população negra – e isso beneficia o filme, pois o contrário não seria crível. Em contrapartida, Lincoln parece acreditar que o espectador já conhece a história que está narrando, e o grande número de personagens ajuda a tornar esse quadro ainda mais confuso, já que vários não são apropriadamente apresentados.

Evitando divinizações, Daniel Day-Lewis transforma Abraham Lincoln numa figura de grande carisma e temperamento sereno que mal disfarça seu permanente cansaço. Sujeito de alma simples (alguns de seus “causos” são engraçadíssimos), o presidente demonstra um enorme tato ao lidar com seus subordinados (embora assuma uma postura mais firme e autoritária quando julga necessário) ao mesmo tempo em que se mostra um astuto estrategista, estabelecendo-se menos como mito do que como o gênio político que provavelmente era. Enquanto isso, Tommy Lee Jones encarna Thaddeus Stevens como um homem impulsivo, mas inteligente o bastante para perceber que sua visão de mundo extremamente à frente de seu tempo poderia mais atrapalhar do que ajudar a causa abolicionista – e o ator convence de tal forma a integridade de Stevens que é tocante testemunhar seu autodesprezo ao ceder parte de seus ideais a fim de não perder apoio para a Emenda. Ao mesmo tempo, Stevens se beneficia da característica persona mal-humorada de Jones, protagonizando cenas hilárias – e o único momento em que Lincoln e Stevens se encontram de fato representa, sem dúvida, o ponto alto da produção.

Apesar das qualidades de sua trama política, Lincoln se fragiliza enormemente ao tentar equilibrar essas sequências com a vida privada do presidente. Não que esse fragmento seja péssimo, pois não é, mas pouco contribui para tornar Lincoln uma figura mais complexa – e assim, Sally Field e Joseph Gordon-Levitt ganham a tarefa ingrata de servir como escada para criar conflitos familiares que têm como único propósito incluir o tema presente em quase todos os filmes de Spielberg: a ausência paterna. De fato, a única cena de Lincoln que sai da apatia emocional sequer envolve o personagem-título: a breve conversa que Thaddeus Stevens mantém com a companheira com quem é impedido de se casar pela diferença racial.

Com uma recriação de época altamente elogiável, Lincoln acertadamente economiza nos planos em contraluz que visam mitificar seu protagonista. Aliás, a fotografia de Janusz Kaminski se mostra contida em função da constante ambientação em interiores (sempre tomados de fumaça de cachimbo ou cigarro), aproveitando bem as cenas em externas, como a batalha que abre o filme e o quadro que traz Robert Lincoln (Gordon-Levitt) parecendo pequeno depois de testemunhar uma cena pavorosamente gráfica. Por outro lado, a montagem de Michael Kahn é vencida pela longa duração do projeto, apesar do uso de ocasionais flashforwards no esforço de tornar a narrativa mais dinâmica – e a tentativa de criar tensão na sequência em que o Congresso põe a Emenda em votação é fadada ao fracasso, já que sabemos que ela será aprovada. Finalmente, a sequência de batalha na abertura é impactante e violenta, diferindo de cenas similares em O Resgate do Soldado Ryan e Cavalo de Guerra por retratar um combate essencialmente físico – algo ressaltado pela câmera, que se mantém desconfortavelmente próxima dos soldados.

Falhando em despertar as lágrimas que sem dúvida seu diretor desejava, Lincoln acaba parecendo mais frágil do que realmente é em função do ritmo irregular e das várias sequências dispensáveis. Infelizmente, Spielberg não conseguiu, desta vez, controlar seus ímpetos sentimentalistas, pois poderia ter gerado uma obra à altura de Munique. Mas, em seus melhores momentos, consegue tratar o tema com a seriedade merecida.

(Originalmente escrito para o site nonada.com.br)

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Lincoln (Idem, EUA, 2012)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Tony Kushner, parcialmente baseado em livro de Doris Kearns Goodwin.

Com: Daniel Day-Lewis, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Sally Field, James Spader, John Hawkes, Hal Holbrook, Joseph Gordon-Levitt, David Costabile, Bruce McGill, Jackie Earle Haley, Tim Blake Nelson, Joseph Cross, Jared Harris, Lee Pace, Michael Stuhlbarg, Jeremy Strong, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, Boris McGiver, David Oyelowo, Elizabeth Marvel, Bill Camp, Lukas Haas, Dane DeHaan, Colman Domingo, Adam Driver e Christopher Boyer.

As Aventuras de Tintim (2011)

(Durante este período pré-Oscar, estou colaborando com o Nonada com análises das obras indicadas. A lista completa sai apenas amanhã, mas já é certo que Tintim não apenas será indicado como é favorito entre as animações.

UPDATE EM 24/01: Bah, que tiro no pé. Tintim levou indicação apenas pela trilha sonora. Enquanto isso, os apenas regulares Kung Fu Panda 2 e Gato de Botas ficam com as vagas de Tintim e Operação Presente.)

Os créditos iniciais de As Aventuras de Tintim, que homenageiam o universo dos quadrinhos em seu estilo 2D, já transmitem a primeira boa impressão do longa – impressão que se mantém até os minutos finais. Na verdade, o filme não é apenas o primeiro de Steven Spielberg no campo da animação, mas também a primeira aventura digna de sua assinatura desde Jurassic Park, lançado há longos 19 anos. Conduzido com uma energia que o diretor há anos não exibia, Tintim mostra que aquele Spielberg que se tornou famoso como um dos pais do blockbuster ainda existe e finalmente voltou a dar sinais de vida.

Inspirado pelos quadrinhos criados pelo belga Hergé no final da década de 1920 (com os quais, devo dizer, não tenho qualquer familiaridade), As Aventuras de Tintim traz o personagem-título (Jamie Bell) sendo perseguido pelo misterioso Sakharine (Daniel Craig) depois de comprar uma miniatura do navio Licorne. Quando descobre o segredo oculto no modelo, Tintim é sequestrado pelo sujeito e encarcerado na embarcação outrora capitaneada por Archibald Haddock (Andy Serkis), também prisioneiro do vilão por possuir um antigo segredo de família que possivelmente envolve um tesouro. Assim, Tintim e Haddock, sempre acompanhados do esperto cãozinho Milu, decidem fazer o possível para vencer Sakharine nessa corrida do ouro.

Escrito por Steven Moffat, Joe Cornish e Edgar Wright (este último, o responsável por Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Scott Pilgrim Contra o Mundo), a grande falha de As Aventuras de Tintim está no fraco desenvolvimento de seus personagens, que permanecem figuras unidimensionais – e o protagonista, ao contrário de Indiana Jones (comparação inevitável), nunca se torna o mais interessante dos heróis. Assim, é pena que Tintim sempre tenha a cena roubada pelo divertido capitão Haddock (mais um ótimo trabalho de Andy Serkis) e, principalmente, pelo pequeno Milu. Por outro lado, é surpreendente que o Spielberg que apagou as espingardas de E.T., conduziu um genocídio clean em Guerra dos Mundos e limitou a violência de Cavalo de Guerra traga tantos tiroteios e confrontos armados nesta aventura infantil – o que, longe de ser um defeito, traça um retrato de época mais convincente e confere urgência à trama.

Aproveitando ao máximo o fim das limitações do mundo real, Spielberg diverte-se não apenas nos vários quadros que trazem os personagens refletidos em algum objeto (já que não há o risco de câmera e equipe aparecerem), mas, principalmente, na concepção das sequências de ação – e se o plano sem cortes em que Milu sobe a escada, salta pela janela e cai em um caminhão e o flashback que traz uma batalha no Licorne durante uma tempestade já são admiráveis, não chegam nem perto da sensacional perseguição na cidade de Bagghar: concebida como um plano-sequência longo e frenético que faz o percurso do bilhete de trem em O Expresso Polar parecer brincadeira, a cena traz inúmeros elementos e figurantes enquanto os personagens percorrem ruas, prédios, aposentos, canais e deslizam em fios suspensos enquanto um tanque arrasta a fachada de um hotel – uma sequência que, por si só, vale todo o filme, representando uma das melhores que Spielberg já dirigiu em sua carreira.

Exibindo um preciosismo técnico digno da Pixar, a compleição física dos personagens de As Aventuras de Tintim jamais deixa de convencer, mesmo aqueles de visual mais caricato (como os estúpidos agentes Dupond e Dupont, vividos pelos ótimos Simon Pegg e Nick Frost): é possível ver suor e sinais de barba na pele dos personagens, Haddock cospe ao falar e gotículas de água sopram quando uma escotilha é aberta. E enquanto Spielberg retoma velhas parcerias com o montador Michael Kahn e o diretor de fotografia Janusz Kaminski, que enriquecem o filme com uma iluminação típica de filmes de mistério e fusões de cena criativas (merecendo destaque o mar que se transforma numa poça d’água e, é claro, o navio que traz o oceano consigo, cobrindo o deserto), o mestre John Williams investe numa trilha empolgante e eficiente – embora faça falta um tema para o personagem, principalmente se lembrarmos que este é (muito provavelmente) o primeiro exemplar de uma franquia.

Incluindo uma “ponta”de Hergé nos minutos iniciais, Spielberg ainda merece aplausos por usar o 3D com economia, evitando torná-lo uma distração tola. E ainda que falte equilíbrio no tom do filme (a morte de certo personagem não combina, por exemplo, com a estratégia absurda do vilão para roubar um objeto), é inegável que o cineasta conseguiu criar uma aventura digna dos seus tempos de juventude – e torçamos para que isso dê um novo fôlego à carreira do cineasta. Esse Spielberg faz falta.

(Originalmente escrito para o site nonada.com.br)

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As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin, EUA/Nova Zelândia, 2011)

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Steven Moffat, Joe Cornish e Edgar Wright, baseado nos quadrinhos de Hergé.

Com: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Daniel Mays, Toby Jones, Joe Starr, Simon Pegg, Nick Frost, Gad Elmaleh, Mackenzie Crook, Enn Reitel, Kim Stengel e Cary Elwes.

Globo de Ouro 2012

Como só muito recentemente meus pais adquiriram TV por assinatura, essa foi a primeira vez que assisti à entrega do Globo de Ouro desde 2006 (quando o SBT exibiu a cerimônia porque Fernando Meirelles concorreu ao prêmio de Melhor Direção por O Jardineiro Fiel). Organizado pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, o Globo de Ouro vem há muito perdendo seu status de “termômetro para o Oscar” devido às frequentes acusações de que seus membros julgadores aceitam suborno dos estúdios – algo que até o apresentador Ricky Gervais mencionou ironicamente na abertura da premiação.

Não, não. Se existe um “termômetro” para o Oscar, são as premiações das categorias que iniciam nas próximas semanas, como o SAG, o WGA, o PGA e por aí afora. Basta notar que, nos últimos cinco anos, o laureado pelo Globo de Ouro diferiu do Oscar nada menos que quatro vezes. Dito isto, a cerimônia teve alguns bons momentos – destacando-se quando o veterano Sidney Poitier subiu ao palco com Helen Mirren para entregar o prêmio Cecil B. DeMille a Morgan Freeman, que fez um belo discurso reconhecendo a importância do colega para o espaço que os negros ocupam no Cinema. (Poitier foi o primeiro negro a vencer um Oscar de Melhor Ator – em 1964, por Uma Voz nas Sombras). Mas ao invés de Mirren, bem que poderia ter sido Tim Robbins a entregar o prêmio, lembrando a dupla que formaram no inesquecível Um Sonho de Liberdade.

Quanto aos filmes em si, é difícil comentar, já que a grande maioria deles ainda não chegou aos cinemas brasileiros. O Artista foi o grande vencedor da noite, vencendo três prêmios dos seis a que concorria – o suficiente para que o filme saltasse da estreia nos torrents para as telas no Brasil (foi marcado para 10/02). Com relação aos que assisti, comento o seguinte:

Cavalo de Guerra felizmente não levou Melhor Filme – Drama.

– Ótimo prêmio para Woody Allen (que, como de hábito, não compareceu à cerimônia) por Meia-Noite em Paris.

As Aventuras de Tintin pode ser bom (está sendo bastante elogiado), mas dificilmente supera Rango.

Tudo Pelo Poder completamente ignorado. Bah!

Melhor Filme – Drama
Cavalo de Guerra
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
O Homem que Mudou o Jogo
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo Pelo Poder

Melhor Filme – Musical/Comédia
50%
O Artista
Meia-Noite em Paris
Missão Madrinha de Casamento
Sete Dias com Marilyn

Melhor Filme em Língua Estrangeira
As Flores da Guerra (China)
O Garoto de Bicicleta (Bélgica)
In the Land of Blood and Honey (EUA)
A Pele que Habito (Espanha)
A Separação (Irã)

Melhor Filme de Animação
As Aventuras de Tintin
Carros 2
Gato de Botas
Operação Presente
Rango

Melhor Direção
Woody Allen, Meia-Noite em Paris
George Clooney, Tudo Pelo Poder
Michel Hazanavicius, O Artista
Alexander Payne, Os Descendentes
Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Ator – Drama
George Clooney, Os Descendentes
Leonardo DiCaprio, J.Edgar
Michael Fassbender, Shame
Ryan Gosling, Tudo Pelo Poder
Brad Pitt, O Homem que Mudou o Jogo

Melhor Atriz – Drama
Glenn Close, Albert Nobbs
Viola Davis, Histórias Cruzadas
Rooney Mara, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Meryl Streep, A Dama de Ferro
Tilda Swinton, Precisamos Falar Sobre o Kevin

Melhor Ator – Musical/Comédia
Jean Dujardin, O Artista
Brendan Gleeson, O Guarda
Joseph Gordon-Levitt, 50%
Ryan Gosling, Amor à Toda Prova
Owen Wilson, Meia-Noite em Paris

Melhor Atriz – Musical/Comédia
Jodie Foster, Carnage
Charlize Theron, Jovens Adultos
Kristen Wiig, Missão Madrinha de Casamento
Michelle Williams, Sete Dias Com Marilyn

Kate Winslet, Carnage

Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh, Sete Dias Com Marilyn
Albert Brooks, Drive
Jonah Hill, O Homem que Mudou o Jogo
Viggo Mortensen, Um Método Perigoso
Christopher Plummer, Toda Forma de Amor

Melhor Atriz Coadjuvante
Bérénice Bejo, O Artista
Jessica Chastein, Histórias Cruzadas
Janet McTeer, Albert Nobbs
Octavia Spencer, Histórias Cruzadas
Shailene Woodley, Os Descendentes

Melhor Roteiro
Woody Allen, Meia-Noite em Paris
George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, Tudo Pelo Poder
Michel Hazanavicius, O Artista
Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash, Os Descendentes
Steve Zaillian, Aaron Sorkin e Stan Chervin, O Homem que Mudou o Jogo

Melhor Trilha Sonora
Ludovic Bource, O Artista
Abel Korzeniowski, W.E. – O Romance do Século
Trent Reznor e Atticus Ross, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Howard Shore, A Invenção de Hugo Cabret
John Williams, Cavalo de Guerra

Melhor Canção
“Hello Hello”, Gnomeu e Julieta
“The Keeper”, Redenção
“The Living Proof”, Histórias Cruzadas
“Lay Your Head Down”, Albert Nobbs
“Masterpiece”, W.E. – O Romance do Século

Super 8 (2011)

Super 8 é, tematicamente, um filme spielberguiano por excelência, já que inclui dois temas caros ao veterano diretor: extraterrestres e o sentimento de ausência paterna (só faltou a Segunda Guerra) – e talvez tivesse alcançado resultados melhores caso comandado por ele. Já nas mãos do também competente J.J. Abrams (série Lost, Star Trek), o filme se destaca mais pela agradável atmosfera de nostalgia, uma vez que a trama, mesmo conduzida de forma intrigante, jamais consegue amarrar suas pontas com o mesmo brilhantismo – para não exagerar nas palavras logo no primeiro parágrafo.

Escrito pelo próprio cineasta, Super 8 inicia com a morte trágica da mãe de Joe (Joel Courtney), que então passa a lidar com a distância que tem do pai, o policial Jackson (Kyle Chandler). Alguns meses depois, Joe está ajudando seu melhor amigo Charles (Riley Griffiths) na produção de um curta amador que é uma mistura de film noir com George Romero – e quando escapam para fazer uma cena noturna em uma estação, os garotos testemunham um desastre espetacular com um trem carregado de pequenos cubos de metal. A partir daí, estranhos acontecimentos tomam conta da pacata cidade, desde roubos e desaparecimentos até uma forte intervenção do exército. Obviamente, Joe e seus amigos tentam solucionar o mistério ao mesmo tempo em que lidam com a relutância dos adultos e, é claro, tentam finalizar o filme da melhor maneira possível.

Assumindo seu tom saudosista desde os primeiros segundos, quando a vinheta icônica da Amblin surge na tela, o filme se diverte com referências àquela época (o final dos anos 70), dos cartazes de Star Wars no quarto de Joe às músicas disco ouvidas em alguns momentos, passando pela dona-de-casa que acusa os desaparecimentos de serem “coisa dos russos” e pelas pessoas que fumam no local de trabalho. Além disso, a direção de arte também faz um trabalho excelente de recriação de época (Joe poderia ser vizinho da Susie Salmon do terrível Um Olhar do Paraíso), e o uso frequente de bicicletas também remete diretamente ao período – e, claro, aos projetos infanto-juvenis de Spielberg. Por outro lado, J.J. Abrams volta a exibir um vício notável de Star Trek: se naquele filme reflexos luminosos compunham o quadro sem qualquer contribuição estética, aqui são substituídos por fachos de um azul chapado que, mesmo em menor número que naquele filme, também não tem qualquer justificativa. Da mesma forma, o visual da criatura é sem personalidade, assemelhando-se a uma lagosta gigante e subterrânea que emite grunhidos igualmente genéricos – o que é uma pena, já que Abrams vai na contramão da lógica atual dos efeitos visuais, construindo boa parte da tensão do filme com base no que não é mostrado (e quando aparece, é desinteressante).

Aliás, a construção do mistério é o que Super 8 tem de melhor: seguindo o exemplo de Tubarão, até hoje um dos melhores filmes de Spielberg, Abrams antecipa os ataques da criatura com sinais como cães fugindo, oscilações na rede elétrica e sons estranhos à distância, além de, como já dito, evitar mostrar o monstro por um longo tempo, o que torna o espectador mais suscetível ao susto. Para isso, também colaboram as movimentações de câmera nervosas (repare na cena em que os garotos planejam um resgate) e a trilha sonora do excelente Michael Giachinno, que empolga sem se tornar excessiva. Outro elogio deve ser feito ao bom elenco, destacando-se o estreante Joel Courtney, bastante expressivo como o protagonista, e Elle Fanning (irmã de Dakota) como Alice, a garota por quem Joe se apaixona. E seria injusto deixar de mencionar toda a fantástica sequência na estação, desde a divertida filmagem do curta até o descarrilhamento do trem, que emprega ótimos efeitos visuais e sonoros.

No entanto, Super 8 vai se fragilizando à medida que avança, apostando em clichês surrados como as relações problemáticas entre Joe, Alice e seus pais (resolvidas de forma insatisfatória e forçada) e o militar frio que é uma tentativa pedestre de criar um vilão. No entanto, isso está longe de compensar os problemas da ameaça representada pelo alienígena, já que, em retrospecto, suas motivações não combinam com o que é mostrado no terceiro ato. E, infinitamente pior (selecione se quiser ler, mas é spoiler), a criatura não poderia ter reconstruído a nave com os cubos muito antes, já que todos estavam nas proximidades?

Nesse sentido, é decepcionante que Super 8 tenha desenvolvido seu mistério de forma tão cativante para oferecer um desfecho constrangedor, quase matando os minutos que o precederam – e se isso não acontece, deve-se principalmente à inclusão do despretensioso curta dirigido pelos garotos nos créditos finais, que deixam o espectador com a impressão de ter visto um filme bem melhor do que realmente é. Sua nostalgia infantil é de fato um presente e seus enigmas foram muito bem montados. Faltou Abrams desenvolvê-los de forma que fizesse jus a eles – e a Spielberg.
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Super 8 (Idem, EUA, 2011)

Direção e roteiro: J.J. Abrams

Com: Joel Courtney, Elle Fanning, Riley Griffiths, Kyle Chandler, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zack Mills, Ron Eldard, Noah Emmerich, Glynn Turman, Dan Castellanetta e Bruce Greenwood.

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